sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Seleções do futuro: Alemanha

Passada a euforia e o sucesso da Copa do Mundo no Brasil (exceto o resultado em campo da seleção brasileira) é hora das equipes pensarem na Copa do Mundo de 2018. E, por causa disso, o blog inicia hoje uma série de reportagens sobre o futuro das seleções.
Serão apenas prognósticos, uma vez que grandes jogadores terão idade avançada para disputarem a competição em alto nível e craques consagrados tiveram a última chance de mostrar talento em solo brasileiro. A intenção nos próximos 12 posts, um por semana, é montar seleções com jogadores que jamais jogaram mundiais, com idade até 21 anos e que podem debutar em Copas na próxima edição, ou até mesmo nas Olimpíadas em 2016.

ALEMANHA


A primeira seleção sub21 a ser projetada é a Alemanha, da atual campeã da Copa do Mundo e, de antemão, favorita a manter o título na Rússia. Com um trabalho nas categorias de base que começou a ser ministrado há 14 anos e se mantém até hoje com grandes resultados, os alemães formam jogadores talentosos aos montes. Por conta da organização, investimentos a longo prazo, aprimoramento dos conhecimentos técnicos e táticos e infra estrutura, são admirados pelos amantes do futebol. Para a montagem da lista abaixo, foram levados em consideração vários critérios como passagem por seleções de base, títulos e prêmios conquistados, carreira nos profissionais e prestígio na Europa.

* Medalha Fritz Walter - Prêmio dado aos melhores jovens talentos da Alemanha em três categorias: sub 17, sub 18 e sub 19 anualmente. Nomes como Manuel Neuer, Toni Kroos, Mario Gotze e Marc Ter Stegen já conquistaram a honraria.

Nome: Timo Horn
Nascimento: 12 de maio de 1993
Clubes: Colônia B (2010-2012), Colônia (2011-atual)
Temporada 2013/2014: 35 jogos (todos como titular)

Horn estreia na elite da Bundesliga em agosto./ Foto: bild.de
É difícil imaginar a camisa 1 da atual campeã com outro dono depois da grande Copa do Mundo e da regularidade que Manuel Neuer tem mantido embaixo das traves. Além disso, a vaga de reserva imediato acena com umas das grandes revelações nos últimos anos: Marc Andre Ter-Stegen, que vai para a sua primeira temporada no gol do Barcelona. Com isso, o terceiro posto de goleiro alemão ficaria em aberto e um grande nome que pode assumí-lo é Timo Horn.

O titular absoluto do Colônia já disputou duas temporadas, ambas na segunda divisão, sendo campeão em 2013/2014. O bom posicionamento e a agilidade juntam-se à sua capacidade de interceptar jogadas aéreas, se beneficiando dos seus 1,93 cm de altura. Em 70 partidas, Horn sofreu 54 gols. O goleiro tem passagens por seleções de base, tendo disputado a Eurocopa sub21, no ano passado. Pretendido pelo Benfica, Horn já avisou que não vai deixar o Colônia.

Kevin Akpoguma
Nascimento: 19 de abril de 1995
Clubes: Karlsruher (2010-2012), Hoffenheim (2013-atual)
Temporada 2013/2014: nenhuma partida

Akpoguma pode atuar como zagueiro e
lateral./ Foto: 1889-ruhrfanclub.de
Vencedor da Medalha Fritz Walter na categoria sub18 em 2013 e titular da equipe campeã do campeonato europeu sub 19 deste ano, Kevin Akpoguma surge como uma grande promessa para vestir a camisa da seleção principal em breve. Com a aposentadoria de Philipp Lahm,  abre-se uma brecha na lateral e Akpoguma, que é zagueiro de origem e joga de maneira semelhante a Jérome Boateng, é um dos cotados a assumir a vaga.

Com ascendência africana (o pai é nigeriano), é alto, muito forte, rápido e obediente taticamente. Akpoguma ainda tem muito a evoluir, mas o título da terceira divisão pelo Karlsruher, clube onde foi formado e alçado aos profissionais, na temporada 2012/2013, o vice campeonato europeu sub17 em 2012 e a conquista do europeu sub19 deste ano, mostram que o jogador está se acostumando a disputar títulos.

Pelo Karlsruher foram oito partidas, um gol marcado, seis vitórias, dois empates e apenas três gols sofridos. Akpoguma ainda não atuou pelo Hoffenheim na equipe principal.

Nome: Jonathan Tah
Nascimento: 11 de fevereiro de 1996
Clubes: Hamburgo (2011-atual)
Temporada 2013/2014: 20 partidas (17 como titular)

Tah ajudou o HSV a fugir da degola./ Foto:adentblatt.de
O jogador, que se destaca pelo vigor físico (o zagueiro tem 1,92 cm) e velocidade, estreou em uma temporada difícil para o Hamburgo. O clube, que jamais foi rebaixado na Bundesliga, terminou a competição em décimo sexto e teve de disputar o play-off contra o Greuter Furth para permanecer na elite.

O camisa 28 acumula 20 partidas pela equipe profissional e ainda não foi advertido com cartões. Ele é também o jogador mais jovem na história do clube a atuar pelo campeonato nacional, quando tinha apenas 17 anos e 5 meses.

O defensor já despertou o interesse do Liverpool. O clube inglês não conseguiu contratar o jogador em janeiro, já que a proposta de 9 milhões de euros não agradou os dirigentes do Hamburgo.

Nome: Niklas Sule
Nascimento: 03 de setembro de 1995
Clubes: Darmstadt (2009-2010), Hoffenheim (2010-atual)
Temporada 2013/2014: 28 partidas (23 como titular, com cinco gols marcados)

Niklas Süle pode rumar para a Premier League./Foto: bild.de
Quem poderia compôr a zaga alemã ao lado de Jonathan Tah, é Niklas Sule. Mesmo sendo destro, o defensor do Hoffenheim pode atuar em ambos os lados do campo. Apesar dos 18 anos, o jogador de 1,95 cm está em sua segunda temporada pela equipe e entrou em campo 32 vezes entre os profissionais, tendo anotado 5 gols.

O desarme e o posicionamento são os pontos fortes. Assim como seu hipotético companheiro de defesa alemã, Sule já despertou interesse do futebol inglês. O Arsenal, famoso por montar times com jovens jogadores, ofereceu 8 milhões de euros para levar a jóia de Hoffenheim para Londres, mas a oferta foi rejeitada.

Niklas Süle serve às seleções de base desde a categoria sub16. Ao todo já foram mais de 30 jogos vestindo a camisa alemã, tendo participado da campanha do vice campeonato no europeu sub17, em 2012.

Nome: Christian Günter
Nascimento: 28 de fevereiro de 1993
Clubes: Freiburg (2010-atual)
Temporada 2013/2014: 37 partidas (31 como titular)

Günter já teve o gostinho de defender a seleção
principal./Foto:verlagshaus-jaumann.de
Lateral rápido, ágil e forte, Christian Gunter fez uma boa temporada pelo Freiburg, se firmando como titular da posição e ajudando a equipe do técnico Christian Streich a terminar a competição em décimo quarto lugar, permanecendo na elite da Bundesliga. O gol contra marcado no empate com o Eintracht Frankfurt, ocasionado do rebote do goleiro, não diminuiu as expectativas da diretoria sob o seu camisa 30, que renovou o contrato até o meio de 2019.

Com 1,84 cm, o lateral manteria uma média de altura elevada neste time. O jogador já foi convocado para oito amistosos da seleção principal e entrou em campo apenas uma vez. A joia do Freiburg participou do amistoso contra a Polônia, que terminou na igualdade de 0 a 0. Em duas temporadas no profissional soma 45 partidas, deu uma assistência e recebeu seis amarelos.

O jogador tem média de apenas 1,3 faltas cometidas por jogo. O lateral tem no currículo ainda cinco partidas pela seleção sub20.

Nome: Johannes Geis
Nascimento: 17 de agosto de 1993
Clubes: Greuther Fürth (2008-2012), Mainz 05 (2012-atual)
Temporada 2013/2014: 34 partidas (32 como titular e um gol marcado)

Marcador, o volante comete poucas faltas./ Foto: bold.de
À frente dos zagueiros pelo lado direito, um exemplo do chamado ''volante moderno''. Johannes Geis marca e sai para o jogo. Como grandes atributos, tem a visão de jogo que culmina em precisos lançamentos, o que ocasionou 5 assistências na última temporada.

A mesma precisão é vista também para recuperar a bola. O jogador tem média de apenas 1,3 faltas cometidas por jogo e recebeu 4 cartões amarelos em 31 partidas pela Bundesliga. A versatilidade, podendo jogar em diferentes posições no meio de campo e em diversos esquemas táticos, aumentam ainda mais o valor de Geis.

Antes de chegar ao Mainz 05, passou pelo Greuther Furth, clube onde foi formado e conquistou a segunda divisão alemã, na temporada 2011/2012.

Nome: Emre Can
Nascimento: 12 de janeiro de 1994
Clubes: Eintracht Frankfurt (2008-09), Bayern Munique (2009-13), Bayer Leverkusen (2013/14) e Liverpool (2014-atual)
Temporada 2013/2014: 39 partidas (32 como titular com quatro gols)

A maior esperança deste time alemão atende pelo nome de Emre Can. Assim como Sami Khedira e Mesut Ozil, o agora jogador do Liverpool, tem ascendência turca, que vai se consolidando como uma receita de sucesso em terras germânicas. Aos 20 anos, Can foi um caso raro na Bundesliga. Formado no todo-poderoso Bayern de Munique, fez o caminho inverso ao de muitos jogadores e deixou o gigante da Baviera.

Em apenas uma temporada com a camisa do Bayer Leverkusen, chamou a atenção dos ingleses pelos seus bons passes e marcação, resultando em uma incrível capacidade de destruir e iniciar jogadas, além claro, da versatilidade. Na temporada passada, Can chegou a atuar como lateral esquerdo em oito partidas.

Em 39 jogos pelo clube, foram 4 gols. Não a toa, os Reds desembolsaram 12 milhões de euros para contar com o jogador que deve disputar uma vaga no meio de campo ao lado da estrela Steven Gerrard. Foi vencedor da Medalha Fritz Walter sub17 em 2011.

Nome: Max Meyer
Nascimento: 18 de setembro de 1995
Clubes: Duisburg (2008-10) e Schalke 04 (2010-atual)
Jogos em 2013/14: 41 partidas (29 como titular, com sete gols)

Quem vê o camisa 7 do Schalke 04, baixinho para os padrões alemães (1,69), rápido, habilidoso, de dribles e passes curtos, pode imaginar que trata-se de um legítimo meia sulamericano despontando na Bundesliga. Mas o jogador em questão é a jóia Max Meyer, que o clube de Gelsenkirchen encontrou no Duisburg e vai lapidando com cuidado.

O meia ganha cada vez mais espaço e prestígio na equipe de Jens Keller, admirador de seu futebol, mesmo com a concorrência de Kevin Prince Boateng. Em duas temporadas, foram 47 partidas disputadas, 7 gols marcados e 6 assistências. Com tanta expectativa em torno do jovem talento, que chegou a integrar a pré-lista de Joachim Low para a Copa deste ano, os Azuis Reais trataram de renovar o contrato de Meyer até 2018, e com isso esfriaram a ambição de clubes do continente em contar com o jogador - o Chelsea foi um dos que mostraram interesse.

Em 2012, Meyer foi eleito o melhor jogador do europeu sub 17, competição da qual foi artilheiro com três gols. Coroou o ano com a Medalha Fritz Walter de prata na categoria.

Nome: Leon Goretzka
Data de nascimento: 6 de fevereiro de 1995  
Clubes: Bochum (2008-13) e Schalke 04 (2013-atual)
Jogos em 2013/14: 32 partidas (15 como titular, com cinco gols)

Goretzka foi bem em seu primeiro ano
com a camisa do Schalke 04./ Foto: bundesliga.com

Ao lado do consolidado Julian Draxler, campeão mundial este ano, e de Max Meyer, Leon Goretzka completa o trio de ouro do Schake 04.  O jogador tem no currículo uma Medalha Fritz Walter de ouro na categoria sub 17, conquistada dois anos atrás. Com excelente domínio e controle de bola, além de passes precisos, o camisa 8 vai amadurecendo e se prepara para sua terceira temporada na Bundesliga.

Em 2012/13, ano da estreia entre os profissionais, Goretzka defendeu o Bochum, na segunda divisão. Foram 36 jogos, 4 gols marcados e uma assistência, desempenho que lhe valeu uma transferência para Gelsenkirchen. O jogador chegou com o moral entre os torcedores, já que preteriu o maior rival Borussia Dortmund, para assinar com o Schalke 04. No novo clube, foram 32 jogos, 5 gols e uma assistência. Uma virtude do meia é flutuar pelo meio de campo, compondo a linha defensiva, fazendo a ligação entre defesa e ataque.

Leon Goretzka pode ainda ajudar os flancos no ataque, principalmente o esquerdo e aparecer como elemento surpresa para finalizações de média e longa distância. O jogador marcou um gol no empate de 1 a 1 contra a Holanda, na final do Europeu sub-17, em 2012. Porém, o título escapou nas penalidades. Eleito pelo jornal italiano La Gazzetta dello Sporto como o sétimo melhor jovem promissor da Europa.

Nome: Maximilian Arnold
Nascimento: 27 de maio de 1994 
Clubes: Wolfsburg (2011-atual)
Jogos em 2013/14: 31 partidas (30 como titular, com sete gols)

Muita disposição, velocidade e uma canhota poderosa. Esses são os principais atributos que colocam Maximilian Arnold nesta seleção. O camisa 27 dos Lobos é também o atleta mais jovem a atuar e a marcar pela equipe profissional, até agora foram 40 jogos e 10 gols com a assinatura de Arnold.

O talento do jogador chamou a atenção e rendeu elogios até de rivais na Bundesliga. Jurgen Klopp, técnico do Borussia Dortmund, o descreveu como ''um dos maiores talentos'' que já viu. Além disso, o jovem é bastante elogiado por ser determinado nos treinamentos, sendo um dos últimos a deixar as atividades.

O meia foi campeão da Bundesliga sub19, tendo marcado 11 gols e dado sete assistências em 17 partidas pelo Wolfsburg em 2012/2013, temporada que estreou na categoria principal.

Nome: Timo Werner
Data de nascimento: 6 de março 1996  
Clubes: Stuttgart (2011-atual)
Jogos em 2013/14: 35 partidas (18 como titular, com cinco gols)

Como ''falso 9'', Werner pode dar mobilidade ao
ataque./ Foto: ran.de
Se Miroslav Klose se aposentou em grande estilo, tornando-se o maior artilheiro em Mundiais, a Alemanha prepara mais um matador para o futuro. Timo Werner, de apenas 18 anos, já desponta no Stuttgart e é uma das maiores promessas do futebol local para os próximos anos. Em sua primeira temporada entre os profissionais, o atacante participou de 34 jogos, vindo 14 deles do banco.

Atuando como ponta esquerda, Werner, marcou 4 gols e deu 3 assistências. O jogador também foi chamado para disputar uma partida pela equipe B do Stuttgart, na terceira divisão, e deixou sua marca. Assim como Thomas Muller, artilheiro da equipe alemã nas duas últimas Copas, ambas com 5 gols, Werner pode jogar como ''falso 9'', já que se movimenta bastante e tem poder de finalização.

Werner recebeu a Medalha Fritz Walter de ouro na categoria sub-17, no ano passado, quando marcou 13 vezes em 10 partidas.

No papel 

Nesta hipotética formação, a movimentação seria a receita do sucesso. Os jogadores têm qualidade para atuar em diversas posições ao longo da partida e a alternância poderia criar uma variável enorme de jogadas. Começando lá na frente, no comando de ataque, Timo Werner cairia pelas pontas, abrindo espaço dentro da grande área para a penetração dos velozes meias. No meio, Maximilian Arnold teria liberdade para flutuar e buscar a bola, criando as jogadas e buscando espaço para os tiros de longa distância, além de alternar posição com Max Meyer e Leon Goretzka. Os dois meias abertos fariam as jogadas de linha de fundo ou entrariam nas diagonais para receber em condições de bater cruzado em direção ao gol.

Leon Goretzka, que sabe atuar mais recuado, ainda seria responsável por compor o meio de campo, podendo inverter com Emre Can ou até mesmo liberando Christian Günter para atacar. As subidas de Günter ao campo ofensivo seriam cobertas por Can, que já atuou como lateral esquerdo e pode ocupar o espaço enquanto o companheiro auxilia o ataque. Pelo lado direito, como Meyer é bastante agudo, Kevin Akpoguma ficaria mais preso na marcação e seria ajudado por Johannes Geis. O volante poderia iniciar os ataques com bons passes na saída de bola ou em lançamentos longos.

Veja também!

Devido ao intenso desenvolvimento das categorias de base na Alemanha, o que culminou também no título da Copa do Mundo deste ano, nomes que podem desabrochar em um futuro próximo ficaram de fora desta lista, que, lembrando, é apenas uma projeção. Vale a pena um olhar detalhado para os seguintes jogadores:

Niklas Stark: Volante do Nuremberg, 19 anos. Capitão da equipe campeã europeia sub19, atuou como zagueiro e deu conta do recado. Combina bem força e velocidade.  

Andre Hoffmann: Volante do Hannover, 21 anos. Especulado no Tottenham nesta janela tem como características a marcação e o desarme.

Yannick Gerhardt: Volante do Colônia, 20 anos. Um dos destaques na campanha de acesso que foi coroada com o título, o jogador foi até Lisboa negociar com o Benfica, mas optou por disputar a Bundesliga desta temporada pelo clube que ajudou a promover.

Nico Schulz: Meia e lateral esquerdo do Hertha Berlim, 21 anos. Versátil, tem como pontos fortes a velocidade e a finalização

Marc Stendera: Meia armador do Eintracht Frankfurt, 18 anos. É o camisa 10 e principal jogador da seleção campeã do campeonato europeu sub19 deste ano. Criativo, finaliza bem e se movimenta bastante.

Edição: Matheus Laboissiere
Arte: Thayane Abreu

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Entrevista: Lucas Piasentin

O zagueiro quer ficar em Belgrado
até o fim do contrato./Foto: fkcukaricki.rs
Natural de Londrina, o zagueiro Lucas Piasentin fez os seus primeiros desarmes no clube da cidade, o Paraná Soccer Technical Center, popularmente chamado de PSTC, onde chegou em 1998. Os quatro anos na equipe o credenciaram a vestir as cores de um dos clubes da capital, o rubro negro Atlético Paranaense. Mas, em três anos de Furacão, o defensor não conseguiu ter muitas oportunidades e partiu para a sua jornada no mundo do futebol. Lucas rodou por equipes do Brasil antes de chegar a Portugal onde defendeu o União da Ilha da Madeira. Após uma temporada na terrinha o defensor acertou um contrato até 2017 com o FK Cukaricki, clube de Belgrado, capital da Sérvia, onde vem se destacando. Em entrevista ao blog do Caio Fiusa, Lucas Piasentin conta um pouco de sua trajetória, comenta a rivalidade entre sérvios e croatas e revela porque deseja permanecer em seu clube atual.

Caio Fiusa: Você chegou ao Atlético/PR em 2003, com 17 anos. Geralmente nessa idade, o jogador já passou por um longo processo de formação e os clubes esperam que o jogador já esteja quase pronto para ser lançado no profissional. O que o Atlético/PR acrescentou ao seu futebol?

Lucas Piasentin: O Atlético/PR me ensinou principalmente posicionamento e como sair jogando, a não dar chutões para frente. No primeiro ano de clube joguei somente pelas categorias de base. No segundo, já comecei a ingressar no profissional B, mas ao mesmo tempo jogava pela base sempre que precisavam.

CF: E por ter aprendido a sair jogando sem dar chutões, chegou a atuar como primeiro volante?
 
LP: Em jogos não, as vezes em alguns treinamentos. Eu não gosto de jogar de costas para o campo e também como raramente treino nessa posição, o treinador não tem a confiança para testar no jogo.


CF: E o que faltou pra você ter uma sequência maior no CAP? Sair de lá foi uma opção sua?

LP: Nunca tive uma oportunidade no profissional do clube. Eu sempre fui titular na base, em todas as categorias, e em raras ocasiões perdemos algum campeonato. A minha saída aconteceu porque o meu contrato estava chegando ao fim e o ex-coordenador da base assumiu a do Fortaleza. Ele me fez o convite para jogar lá. Conversei com o coordenador do Atlético/PR e chegamos a um acordo que foi bom para todos.

CF: Aí depois do Fortaleza, você rodou por alguns clubes e chegou ao União, de Portugal. Você acha que por contar com muitos brasileiros, o futebol de lá acaba sendo um pouco parecido com o daqui?

LP: Lembra um pouco mas tem as suas diferenças. Os brasileiros acabam se adaptando ao estilo português, com isso, perdem um pouco das suas características. Acho que no Brasil se joga de forma única, que não tem como comparar ao estilo europeu.

CF: Qual a principal diferença na sua opinião?

LP: São várias, mas pra mim, no Brasil, muitos jogadores jogam individualmente e não ajudam os companheiros na parte defensiva. Na europa não. Voce vê todos se ajudando tanto no ataque como na defesa. Aqui o jogo não tem tantos dribles. É um jogo mais objetivo e com tabelas. Eu não vejo isso no Brasil.

CF: A gente vê muitos comentários e até dúvidas na imprensa e com os torcedores, a respeito do treinamento físico. Vários jogadores que no Brasil que são mais franzinos, ganham massa muscular rapidamente na Europa. Isso fica mais evidente no caso de meias e atacantes, como o Giuliano, que jogou na Ucrânia e agora está no Grêmio, o Robinho e o Pato. É nítida a mudança no corpo desses jogadores...Aconteceu isso com você também? Percebeu alguma mudança no seu corpo? Como é o treinamento físico europeu?
O acanhado Čukarički Stadion tem capacidade para
5 mil pessoas./  Foto: mozzartsport.com
LP: Achei um pouco mais intenso na parte de força. Eles dão muita ênfase nisso, tentam levar lado a lado tanto a parte da resistência quanto a de força. O futebol aqui é muito mais contato e os árbitros apitam de uma outra forma. A obediência tática na Europa é fundamental também. Eles dão muito valor a isso e ao jogo agressivo na bola. Muitos jogadores enfrentam essa dificuldade na adaptação.

CF: Até falando sobre arbitragem, e aproveitando para entrar no futebol sérvio..Eu vi que pelo União você jogou 37 jogos e levou 18 amarelos. Já no FK Cukaricki foram 27 jogos e só 2 amarelos. A que você atribui essa diferença nos números?

LP: (Risos) Em Portugal realmente eu tive um excesso de cartões por não saber como funcionava o estilo europeu. As vezes eu cometia uma falta e jogava a bola para cima para ganhar algum tempo. No Brasil é normal, já em Portugal e aqui na Sérvia, se você faz isso, recebe o amarelo. Atribuo essa diferença gritante à minha adaptação. Não sou um jogador violento e não recebo muitos cartões.

CF: No União você marcou 3 gols e no Cukaricki foram 2. Acredito que foram em jogadas de bola parada, certo? É um ponto mais explorado que no Brasil, as jogadas de bola parada?
  
LP: Isso, nos dois clubes os gols foram de cabeça, com a bola vindo de faltas laterais ou escanteios.
Muitos jogos são definidos em bolas paradas. Pela obediência tática que os europeus têm, as bolas paradas passam a ser mais que uma simples oportunidade de gol, as vezes são a única forma de marcar um gol. Eles sabem disso e dão muito valor.

CF: E no seu caso é somente no cabeceio ou assim como alguns zagueiros você também cobra faltas?
  
LP: Eu treino. Tenho um chute forte e tento marcar de longa distância. Todo campeonato aqui na Sérvia eles fazem uma medição de quem tem o chute mais forte. O meu já chegou a 121 km/h, mas não fui o campeão. 

CF: Sobre o clube, a temporada foi de retorno à elite e vocês conseguiram ficar em quinto lugar, a um ponto do Vojvodina, time que conseguiu vaga para a fase eliminatória da Liga Europa. Por vir da Segunda Divisão, esse resultado superou as expectativas do clube, diretoria, jogadores e torcida?

LP: Infelizmente não conseguimos a vaga para a Liga Europa, mas para a primeira temporada que retornamos a elite foi uma classificação satisfatória. Quase ninguém acreditava que conseguiríamos nos manter na elite. Nós jogadores, junto com a diretoria e os verdadeiros torcedores, acreditávamos que seríamos capazes de chegar na Liga Europa e quase conquistamos o nosso objetivo.

CF: E o que faltou pra garantir esses 2 pontos que dariam a classificação?

LP: Um pouco de sorte e um pouco de experiência também. Acredito que todos do clube ficaram contentes com a nossa classificação, nessa próxima temporada brigaremos de novo pela vaga na Liga Europa.

CF:
Você acha que isso é o máximo que um clube pode sonhar na Sérvia? Já que o título é monopolizado pelo Partizan e Estrela Vermelha e ambos ficam com as vagas na Liga dos Campeões?

LP: A princípio sim, mas o Čukarički está trabalhando em alguns projetos para poder ser um dos maiores clubes da Sérvia e entrar nessa disputa pelo título junto ao Partizan e o Estrela Vermelha. Espero que em um futuro próximo consigamos brigar de igual para igual com eles.

CF: Falando sobre esse ''dentro de campo'' que você disse. O clube é formado praticamente por sérvios. Atrapalha na comunicação? Eu sei que a linguagem do futebol é universal, mas como vocês fazem para se entender?


LP: No Čukarički ate o momento só tem eu de estrangeiro e dois que são de Montenegro, mas eles falam a mesma língua. Eu me comunico em inglês, já que muitos jogadores e a comissão técnica falam. Eu também tenho aprendido um pouco de sérvio. Esse é um dos motivos pelo qual eu gostei daqui. Eu e a minha família conseguimos nos comunicar com as pessoas. Não é somente no clube que falam inglês.

CF: Aprendeu até mesmo o alfabeto cirílico sérvio?
 
LP: Eu consigo ler qualquer coisa e até consigo pronunciar corretamente, mas não sei o significado das palavras ainda. Algumas coisas básicas eu já aprendi.


CF: Qual a peculiaridade do futebol sérvio? 

LP: A altura dos jogadores. Eu tenho 1.93 e no Brasil e em Portugal era difícil encontrar muitos jogadores altos. Aqui é muito dificil encontrar jogadores baixos (risos). Outra pecularidade é a velocidade dos jogadores, além da forca física.

CF: Você já recebeu alguma proposta? Pretende ficar aí? Como está a sua situação?

LP: Sobre propostas eu não sei, até mim não chegou nada. Eu gostei muito daqui. Quero ficar o máximo de tempo possível. A minha familia se adaptou bem e criei um vínculo com o clube muito bacana. Estou muito feliz.

CF: Na Libertadores desse ano, tivemos um caso de racismo com o Tinga, volante do Cruzeiro, que repercutiu bastante. Você já presenciou algo semelhante aí na Sérvia?

LP: Eu soube disso e infelizmente ainda acontece no futebol. Aqui não presenciei nada parecido, até porque, se houvesse alguma ofensa a alguém, eu não entenderia.

CF: Eu queria que você comentasse o comportamento do torcedor sérvio.
 
LP: Os torcedores são muito fanáticos! Tivemos um episódio em um jogo que houve confronto, cadeiras da arquibancada sendo arrancadas e jogadas, por exemplo. A maior rivalidade fica entre Partizan e Estrela Vermelha. Eles têm os estádios próximos e acho que isso causa ainda mais brigas. Aqui eles podem levar bandeiras, cornetas, buzinas, bombas, para o estádio.

CF: E a rivalidade com os croatas? Acredito que os torcedores tenham ficado desolados com a eliminação da seleção para a Copa do Mundo do Brasil, ainda mais perdendo a vaga para a Croácia.
 
LP: Pelo que me disseram, os croatas têm muito mais rivalidade com os sérvios do que o contrário. Dizem que se você for visitar a Croácia em um carro com a placa daqui, é perigoso. Eles podem destruir seu carro dependendo da cidade que você for. Sobre a eliminação, eles ficaram muito chateados. Estávamos concentrados, assistindo juntos e me lembro até hoje a reação deles. Com certeza foi uma sensação horrível para eles e para mim foi de tristeza também, pois queria que eles conseguissem a classificação. Eles têm uma boa equipe e gostaria de vê-los na Copa.
Lucas recebeu um bolo personalizado do clube
no seu aniversário de 28 anos./ Foto: Arquivo Pessoal

CF: Chegou a jogar junto ou contra algum jogador da seleção?  

LP: Sim, alguns jogadores do Partizan e do Estrela Vermelha que participaram do amistoso contra o Brasil. Já joguei contra alguns deles durante o campeonato.

CF: Nesse tempo que está aí, alguma história que te marcou?
 
LP: Uma coisa que aconteceu que achei muito bacana foi no dia do meu aniversário. O clube fez um bolo super bonito personalizado e uma matéria no jornal me dando os parabéns. Achei bem legal e foi uma coisa que marcou pois nunca havia acontecido isso e acho difícil de acontecer. É tradicional também, o aniversariante levar bebidas e comidas no vestiário para o pessoal.

CF: O que você recomendaria de pontos turísticos e culinária para quem for conhecer a Sérvia, ou até mesmo só Belgrado (cidade do clube)?

LP: Os lugares são os parques. A cidade possui muitos parques verdes para passear e relaxar e tem a Igreja de Saint Sava, a maior catedral ortodóxica da Europa, que é muito bonita. Outro ponto turístico é o Kalemegdan, a antiga Fortaleza da cidade. Sobre a culinária, eu acho muito gostosa uma carne chamada Cevapcici.

Entrevista realizada via internet.
Colaboração: Matheus Laboissiere
Contato: fiusa.caio@gmail.com

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Entrevista: Alexandre Cerdeira

Persistente, atacante levou 10 anos para se formar
em Administração./Foto: Arquivo Pessoal
Aos 33 anos e atualmente sem clube, Alexandre Cerdeira é um caso raro no futebol. Profissional desde 2000, o atacante conseguiu juntar os estudos aos gols marcados ao redor do mundo. Formado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, o jogador revela um pouco da sua trajetória que conta com passagens pelo desconhecido futebol islandês e por importantes clubes do cenário nacional. Abaixo você confere a entrevista exclusiva que Alexandre deu ao blog do Caio Fiusa.

Caio Fiusa: Você é formado em Administração e acredito que pertença a um pequeno grupo no futebol que conseguiu manter os estudos...

AC: Então, quando eu fui para a Europa eu sempre tive o pensamento de voltar para terminar a faculdade. Levei quase 10 anos para conseguir. Hoje, eu acho que isso está mudando. Os jogadores estão procurando se profissionalizarem fora de campo. Existem mais opções de faculdades, até mesmo ensino a distância, que para o jogador é essencial. O jogadores têm a imagem de ''burro'', mas são pessoas muito inteligentes. Não é justo o cara ter que abandonar os estudos para seguir no futebol. Os clubes têm de saber lidar com a questão da idade. Por isso que, às vezes, o jovem prefere o lado do estudo por considerar uma carreira ''mais séria''. O futebol ainda é visto como algo marginal. Não é e não precisa ser. 

CF: E como foi o seu início no futebol?

AC: Para você se tornar profissional, normalmente você começa a jogar muito cedo. Não é uma regra. Eu comecei com 8 anos. E nas categorias de base o profissionalismo se mistura com a diversão. Mas eu consegui terminar meus estudos, chegar a faculdade que é muito difícil por conta do calendário. Chegou uma hora que tive que parar a faculdade, quando fui jogar fora do país. Foi um período difícil para conciliar mas valeu a pena. É o que eu vou levar para minha vida no pós carreira. Fiz toda a minha base no São Cristóvão. 

CF: Você jogou no São Cristóvão pouco tempo depois de o Ronaldo ter saído de lá. Ele era uma referência para os garotos?

AC: O Ronaldo foi um caso especial, um ponto fora da curva. Ele saiu do São Cristóvão sem ter ficado tanto tempo lá. Apesar de ter aquela frase ''Aqui nasceu o fenômeno'', ele não chegou a ser uma referência dentro do clube. Não deu tempo dele construir uma carreira. O Ronaldo vai ser sempre uma referência pelo jogador que ele foi. 

CF: E alguma vez houve alguma comparação, por vocês dois serem atacantes, começarem no São Cristóvão?

AC: Eu já tinha uma experiência fora do país. Joguei por um tempo no Boa Vista de Portugal, clube onde o meu pai também jogou. Do Boa Vista eu fui convidado para jogar no Sporting Lisboa. Uma vez um empresário me ofereceu ao PSV. Isso foi em 1998. E aí fomos conversar com Bobby Robson, que tinha treinado o Ronaldo no Barcelona e estava de volta ao PSV. Eles estavam em Lisboa para um jogo contra o Benfica. Quando nós fomos apresentados, ele comentou ''Será um possível novo Ronaldo?''. Mas tudo na brincadeira. Afinal, eles tiveram uma sequência boa com Romário e Ronaldo. O negócio não foi para frente por questões contratuais, mas a conversa foi bem interessante.

CF: Você teve uma passagem rápida pelo Vasco em 2000. Queria que você falasse um pouco do tempo em São Januário.

AC: Eu cheguei ao Vasco na época da Copa João Havelange. Era junior no São Cristóvão e me profissionalizei em São Januário. E como no clube tinham muitos atacantes bons como Romário, Edmundo, Viola, Euller, além dos que estavam subindo da base, acabei voltando ao São Cristóvão para jogar a competição.

CF: Após a curta passagem pelo Vasco e também pelo Boa Vista, de Portugal você mais uma vez tem um clube português na carreira: a Portuguesa. Mas, no final do ano de 2002, a Lusa foi rebaixada pela primeira vez em sua história no Campeonato Brasileiro. O que aconteceu?

AC: A Portuguesa é um clube que, de uns anos para cá, criou-se o rótulo de um clube pequeno. Mas eu vejo como um clube muito tradicional, forte politicamente, que consegue sobreviver com seus associados e patrocínio dos próprios associados. Tem os seus momentos de baixa, mas é muito importante no cenário nacional. Tive uma experiência muito boa, a primeira fora do Rio, que me deu a oportunidade de ter contato com a colônia portuguesa que é a minha também e acabou servindo de trampolim para a Europa. Na época, o clube vivia uma crise política. Quando a parte política começa a interferir muito, reflete no que está acontecendo no campo. E nesse mesmo ano, o clube foi campeão da Taça São Paulo de Juniores, então tinham jovens muito bons que não tiveram as oportunidades no momento certo.

CF: Você disse que o elenco tinha muitos garotos e você mesmo era jovem ainda. Você acha que o rebaixamento pode ter queimado os jogadores?

AC: Queimado não, mas desvaloriza. Se o clube não tivesse caído, os jovens teriam mais oportunidades. Eu mesmo depois disso saí do país. Claro que foi uma oportunidade boa para mim, mas de repente se a Portuguesa não tivesse caído eu poderia ter feito uma carreira no Brasil mais longa. 

CF: E aí, logo depois da sua experiência fora do Rio, você acertou com o Apollon, da Grécia. Como foi sua passagem por lá?

AC: Depois da Portuguesa, fui a Portugal tirar o passaporte e tive um convite para jogar na Grécia. Na época tinham muitos brasileiros, inclusive o técnico Eduardo Amorim. Eu me surpreendi com o país. Consegui aprender a língua também. Sempre tive essa questão do estudo junto. Consegui juntar os brasileiros e formar um grupo de estudos lá para aprender a língua. Apesar da fama que os gregos contraíram depois da crise financeira, eu nunca tive problema contratual, foi tudo sempre cumprido conforme o combinado. A experiência foi boa, conseguimos subir o clube para a Primeira Divisão.

CF: Logo depois de você sair do Apollon, a Grécia foi campeã da Eurocopa de 2004. Existia alguma expectativa do povo para a competição?

AC: Não existia expectativa nenhuma. Existia só para receber as Olimpíadas. Só o fato de terem se classificado para a Eurocopa já era um ponto positivo, mas o título surpreendeu o mundo e o próprio país.

CF: Ainda acompanha o futebol grego?

AC: Falo com os meus amigos, acompanham por eles mesmo. O Apollon ficou um tempo na Primeira Divisão e depois caiu, também por problemas financeiros. A Grécia é um lugar onde os torcedores são muito apaixonados. Eles continuam indo aos estádios e as rivalidades continuam sendo exploradas. Enquanto isso existir, o campeonato grego vai ser um sucesso dentro do país. Tanto que a seleção está classificada para a Copa.

CF: Através de vídeos na internet dá para ver que os gregos são muito fanáticos pelos clubes, isso vale também para o basquete. O futebol é o primeiro esporte na Grécia, assim como é no Brasil?

AC: Acredito que seja. Eles gostam muito de basquete também. Os torcedores são presentes, fazem muita pressão, principalmente quando o clube perde. Eles fazem muitas festas também, costumam levar sinalizadores, fica bem bonito.

CF: Sobre o futebol e mais especificamente a seleção, a Grécia é famosa pelo estilo defensivo. Você sentia isso nos clubes?

AC: Eu acho que essa cultura começou por causa do título de 2004. Eles claramente tinham no campeonato um posicionamento mais defensivo, que funcionou. A partir do momento que dá certo para um país que até então não havia conquistado um título expressivo, aquela cultura passa a predominar. Não sei se os clubes refletem essas estratégias. Acho que não. Depende muito de contra quem se joga. Se o Olympiacos for jogar contra uma equipe pequena, não vai ter essa postura. Talvez a seleção jogue assim ainda por ter dado certo antes.

CF: Você também atuou pelo Dundee, da Escócia e atualmente, fala-se muito na mudança da dupla Celtic e Rangers, gigantes locais, do campeonato escocês para o inglês. Você acha que daria certo?

Para Alexandre, campeonato escocês seria prejudicado com
saída de Celtic e Rangers./ Foto: Arquivo Pessoal
AC: Eu, particularmente, acho que sim. É complicado por uma questão regional, pelas desavenças entre Inglaterra e Escócia. Celtic e Rangers estão muito acima dos demais. Ao mesmo tempo alimenta o próprio campeonato escocês. Se os dois saírem, a competição fica muito prejudicada. Até por questões nacionalistas, eu acho que tanto Celtic quanto Rangers não fazem força para essa mudança.

CF: Com exceção dos dois grandes campeões, o campeonato é nivelado?

AC: Todos os outros clubes, dependendo do ano, pertencem ao mesmo nível. É um campeonato muito interessante, por estar próximo da Inglaterra é bem visto, os clubes possuem boas estruturas...

CF: A gente sabe que no passado a Inglaterra sofreu muito com os atos dos hooligans e na Escócia existe uma das maiores rivalidades do futebol mundial entre Celtic e Rangers. Comoera essa questão da segurança por lá?

AC: Nessa época e até hoje eu acho, diminuiu bastante. Não vi nada. Pelo contrário, vi uma organização fantástica. Os jogos de Celtic e Rangers têm média de 50 mil torcedores e quando nós chegávamos no estádio não tinha ninguém. A gente descia para trocar de roupa, fazer aquecimento e quando voltava estava lotado. As pessoas entravam faltando 15, 20 minutos e a mesma coisa acontecia no fim do jogo. É um fluxo grande de pessoas muito bem organizado. Violência eu não vi, como tinha Grécia. Lá eles quebravam cadeiras, carros, marcavam brigas, ameaçavam jogador... Aquele jogo trágico entre Liverpool e Juventus em 1985 foi um marco.

CF: Queria que você falasse sobre o CFZ, clube pelo qual você teve duas passagens (2006-2007 e 2011-2012) e que tem um modelo de gestão empresarial.

AC: Não sei como está hoje, mas começou com uma proposta interessante. Na época era Rio de Janeiro e depois, acredito que por uma questão de marca mudou para CFZ. Era uma intenção do Zico montar um clube empresa, nos moldes que ele tinha visto fora. Acho que ele foi muito bem, mas infelizmente não conseguiu chegar na Primeira Divisão. Vejo ele com a escolinha Zico 10, com a oportunidade de disseminar uma proposta muito legal, atrelar a educação ao esporte. Hoje, o CFZ tem um papel mais formador, não só de jogadores, mas de pessoas que vivenciaram o futebol por algum tempo. Mesmo que a pessoa não venha a ser um jogador, ela vai ter o futebol como determinante na vida dela e isso gera mais um fã, um consumidor para o esporte.

CF: Em 2008 você acerta com o IBV, da Islândia. Conta um pouco sobre esse país tão desconhecido para nós que por pouco não se classificou para a Copa de 2014 (eliminada na repescagem para a Croácia). 

AC: Normalmente os jogadores islandeses têm bastante sucesso em outros países. Isso contando que o campeonato da Islândia dura 4 meses. É um país com 300 mil habitantes com complexos esportivos e campos de futebol fechados e climatizados para formar atletas, que mesmo no inverno eles continuam praticando. Lá reina o espírito de comunidade, as pessoas se ajudam muito, precisam dos mesmo serviços e compartilham tarefas. A mesma pessoa que trabalha no banco, no dia do jogo ele ajuda o clube vendendo ingresso. Não tem habitante suficiente para ocupar todas as funções. Todo mundo faz sua própria obra e mudança, por exemplo. O meu clube ficava em uma ilha pequenininha de 4 mil habitantes.

CF: O próprio nome do time (IBV é Ibróttabandalag Vestmannaeyja) é complicado. Você conseguiu aprender algo de islandês?

AC: Eu fiz um curso de islandês, na época eu aprendi o básico, mas não tanto quanto o grego. É legal para aprender algumas curiosidades. Hoje, na Grécia eu conseguiria me virar. O que me ajudou foi que eu sempre gostei de matemática, que usa as letras do alfabeto grego. Então são as letras da matemática fazendo sentido, compondo uma palavra. O meu estudo de grego foi importante porque lá, muitas pessoas não falam inglês. Na Islândia que foi muito complicado.   
CF: Voltando ao Reino Unido, mais recentemente, em 2012, você defendeu o Billericay Town FC, um clube que disputa uma liga regional que vale para o âmbito nacional. Eu queria saber a sua opinião sobre esse formato de competição.

AC: Principalmente falando em Campeonato Brasileiro, fala-se muito em acabar com os estaduais. Eu não concordo com isso porque é uma particularidade do Brasil. Cada país tem as suas particularidades e a Inglaterra conseguiu sucesso no seu campeonato, respeitando uma particularidade dela que são as regionalidades. Se a Inglaterra conseguiu isso, foi por causa de medidas x e isso não quer dizer que o Brasil tenha que fazer o mesmo. Precisa existir criatividade considerando as nossas características locais. Existem tantos clubes que precisam de receita e exposição que estão ficando de lado. Existem jogadores que precisam jogar. Futebol não é feito de primeira divisão. Quanto mais divisão você tiver, mais jogadores você vai descobrir, mais talentos você vai gerar e fomentar o esporte no país. A gente não pode matar os times de menor expressão, devemos dar condições a eles disputarem campeonatos rentáveis. Em São Paulo consegue-se fazer isso. O futebol não tem que ser milionário para ser bom.

CF: E qual ou quais você acha que são os problemas dos clubes brasileiros?

AC: Os clubes pecam por depender das cotas de televisão e do patrocinador master. Acho que o clube não precisa disso. Minha vontade é de, quem sabe um dia, eliminar o patrocinador master. Existem outras formas de conseguir receita. Isso se dá através de licenciamento. Quando os clubes tiverem suas marcas geridas para licenciarem produtos, vão ter um retorno muito maior. Hoje em dia, são tantos pedaços de patrocínios na camisa que o (patrocinador) master se perde ali. O que acontece é que a marca está sendo vendida na camisa. Com a exposição ela vende mais produtos ou mais serviços. Ora, se essa exposição gera mais venda de produtos e/ou serviços, porque não vender serviços e produtos do clube? Se é tão claro que é bom para uma empresa que a marca dela esteja na camisa do clube, porque não a marca do clube na camisa? Isso acontece porque ainda não existem produtos nem serviços atrelados.
  
CF: Queria que você fizesse um balanço da sua carreira, em ser no que nós chamamos no futebol de ''andarilho''.

AC: É bom porque eu pude conhecer várias culturas e o ponto negativo é não ter uma identificação maior com algum clube. Mas, dentro da minha proposta, que era justamente conhecer lugares bacanas, eu acho que fui muito bem sucedido. Eu ainda pretendo ou conhecer um novo lugar ou voltar para onde já estive, não sei. Ainda dá para eu jogar por muitos anos.

CF: Eu vi que você tem vídeos na internet. Hoje, os clubes levam isso em consideração na hora de fechar um contrato, é importante ter um?

AC: O You Tube nada mais é do que uma televisão gratuita. A gente sabe que o Neymar está jogando de uma forma no Barcelona sem ter ido lá ver. A gente vê os vídeos dele jogando lá. Eu vejo muita implicância, um olhar pejorativo com vídeo de jogadores, mas é que todo jogador tem imagens para mostrar, desde o mais famoso até o menos famoso. Os clubes levam a sério, mas não 100% na hora de contratar. Inicialmente, você precisa ter um material on-line para mostrar, convencer alguém a viajar para te ver.

CF: Sobre atuar fora do país, o que você pensa a respeito?

AC: Eu acho que o brasileiro merece ter essa experiência de jogar fora. Jogar em um outro país e ser reconhecido pelo que você faz, é muito bom. Agora, em que ponto cada um deve ir, depende de cada jogador. Eu sempre quis ir muito cedo, além de ter a facilidade do passaporte português, ninguém veio me buscar aqui e eu que fui para lá para também conhecer outras culturas. Eu sabia que isso ia enriquecer não só a minha carreira, mas também em mim como pessoa. O que eu vejo é que as propostas aparecem cada vez mais cedo e fica difícil para o jogador recusar.

CF: O que você levou do Brasil para os países por onde passou?

AC: As pessoas sempre perguntavam o que eu estava fazendo no país delas, elas têm a imagem de um país muito bonito. Mas, por outro lado, elas têm muito medo da criminalidade. O que eu passava a essas pessoas era que estavam certas quanto a beleza, mas não tanto em relação a violência. Eu dizia que o Brasil tinha passado por uma crise de violência mas que já não era tanto assim. Incentivava a virem conhecer e verem que não era como pensavam. Sempre tentei passar a melhor imagem da sociedade brasileira. Claro que eu não mentia, mas como existe em outros lugares. Como em alguns países europeus o índice de violência beira o zero, qualquer notícia tem muito impacto.

CF: O que você pode falar para quem deseja conhecer algum dos países por onde você passou?

AC: A Islândia é um país lindo. É um vôo rápido de Londres para lá, tem muitos turistas ingleses. Tanto a Islândia quanto a Escócia têm paisagens muito verdes. Sobre a (paisagem) da Grécia eu nem preciso falar, mas é importante dizer que os gregos têm um azeite e um vinho muito bons. Falando sobre a Grécia ainda, gostava muito de comer a Musacca, que é uma lasanha de berinjela. São porções pequenas nos restaurantes de lá, então você acaba experimentando muita coisa.
  
CF: E para a gente terminar, alguma história que tenha te marcado...

AC: Na Islândia, por ser uma ilha, ter o espírito de comunidade que eu falei e todo mundo pescar, eles diziam que eu não precisava fazer isso. Era só eu pedir para alguém, que traziam de graça, até mesmo o companheiro de clube. O salmão e o bacalhau, sem sal, por exemplo, são muito bons.

Contato: fiusa.caio@gmail.com

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Entrevista: Franklin Vicente

Emprestado ao Celje, Franklin se recupera
de grave lesão/ Foto: Leo Carahija


Uma grave lesão e 5 meses longe dos gramados. Emprestado pelo Olimpija Ljubjana ao Celje, ambos da Eslovênia, até o fim da temporada, em dezembro, para se recuperar de uma ruptura no músculo posterior da coxa direita, o atacante Franklin Vicente não deixa se abater. Aos 24 anos, o jogador está há 3 no país europeu onde enfrenta além da marcação dos adversários, o inverno rigoroso. Abaixo você confere na íntegra, a entrevista exclusiva que o atleta, revelado pelo Figueirense-SC deu ao blog do Caio Fiusa. Nela, Franklin conta um pouco sobre o futebol e a cultura de um país tão desconhecido para os brasileiros.

Caio Fiusa: Você está voltando agora de uma grave lesão. Como está se sentindo? Já está 100%?

Franklin Vicente: Depois dos dois últimos jogos, já estou me sentindo muito bem, mas ainda preciso recuperar a minha forma física. No primeiro jogo, depois da lesão, joguei 20 minutos, no segundo um tempo inteiro, no terceiro joguei 80 minutos e o último joguei o jogo todo. A confiança vai voltando com o tempo. Ainda não me sinto confiante para fazer algumas coisas, mas graças a Deus estou a cada dia melhor.

CF: Há 3 anos no país, você já disputou 77 partidas e marcou apenas 11 gols. Está satisfeito com essa média?

FV: Eu jogo mais como segundo atacante, pelos lados do campo. Não sou centroavante. Sempre tenho números maiores de assistências do que de gols, mas claro que quero fazer gols também. Como um profissional, eu sempre procuro melhorar. Quanto mais gols eu fizer, melhor para mim e para minha equipe.

CF: A maioria dos jogadores dos elencos de Olimpija e Celje é eslovena, diferente de outros países europeus onde é difícil você encontrar um jogador local no primeiro time. Você acha que essa predominância de eslovenos faz com que o futebol da equipe fique muito preso ao estilo de jogo esloveno?

FV: Eu acho que isso não muda muita coisa. O jogador estrangeiro vem pra cá para fazer o que o treinador quer. Os eslovenos gostam de jogadores talentosos que sejam de fora, mas ele tem que ser em primeiro lugar dedicados taticamente e depois ele vai mostrar o talento. Os 11 jogadores tem funções no ataque e na defesa, não existe essa de atacante não marcar. Então, não adianta você fazer dois gols por jogo e não ajudar a marcação. O jogo é bem intenso e o atleta corre o tempo inteiro.

CF: Você tem liberdade para mostrar e desenvolver as suas principais características?

FV: Eles me entendem e pedem para eu driblar, arriscar jogadas, mas quando temos que marcar eles exigem que eu marque assim como todos os outros.


CF: Na entrevista anterior, o Tom Gilio, que está na Bulgária, revelou que os próprios jogadores têm um certo preconceito contra estrangeiros e, principalmente, contra negros. Você já passou por alguma situação do tipo? 

FV: Olha, aqui na Eslovênia eu não percebo nenhum tipo de racismo contra estrangeiros, pelo contrário, somos muito bem tratados. Mas eu já fui ofendido 3 vezes aqui em partidas, todas elas no mesmo lugar. A torcida desse time era meio barra pesada também. Fora isso, eu tenho um vida bem tranquila em relaçao a esse tipo de preconceito.

CF: Futebol aí é paixão? Os torcedores tem aquele fanatismo? E eles são violentos?

FV: Fanáticos somente as torcidas do Maribor e do Olimpja, porque são os dois maiores times do pais. As dos outros clubes são normais, até porque aqui o futebol não é o esporte preferido deles. Então não é aquela paixão como no Brasil. E os casos de violência são entre torcida e polícia.

CF: Nos últimos 4 anos, o Maribor foi 3 vezes campeão e é o maior vencedor do campeonato nacional com 10 conquistas. Isso mostra que o campeonato é desequilibrado?

FV: Nao, o campeonato é muito disputado do começo ao fim. Apesar de o Maribor nos últimos anos ter um notório desempenho nas eliminatórias dos campeonatos europeus, eles têm dificuldade como todos os outros times de ponta do pais.

Maior dificuldade de Franklin foi o inverno esloveno./
Foto: Miha Koron
CF: O campeonato esloveno é recente devido ao fim da Iugoslávia. Por conta disso, é atrasado? Falta estrutura? 
FV: Em termos de estrutura nem todos tem tanto a oferecer, mas todos eles têm estrutura de time profissional. Os clubes são de longa data, a maioria já existia desde do tempo da Iugoslávia. O problema é mesmo que os eslovenos não são apaixonados como nós pelo futebol.

CF: Eu vi que os estádios são acanhados, com média de 16, 18 mil de capacidade. Mesmo assim a torcida comparece e faz deles pequenos caldeirões? 

FV: Os estádios são pequenos, o maior é o do Olimpija com capacidade para 22 mil.
A ocupação depende do jogo. Quando são clássicos, a torcida comparece. A festa fica mais para as organizadas, elas que têm os fiéis torcedores.  

CF: A Eslovênia esteve na última Copa, na África do Sul, em 2010. Você acha que isso fez com que houvesse um investimento nas categorias de base? Como está o futebol esloveno nesse sentido?

FV: Acho que o investimento na base ainda é muito precário. Precisa-se de muito mais para se manter em um alto nível.

CF: Diferente de muitos brasileiros, você tem um empresário estrangeiro, o croata Mirsad Keric. Estar com ele foi uma opção sua? E quanto tempo tem essa parceria? 

FV: Vão fazer 3 anos que estamos juntos. Ele me procurou e o interesse de me levar para fora do Brasil veio dele também. Eu sempre tive o sonho de jogar na Europa, então quando pintou uma oportunidade eu não pensei duas vezes.
CF: Você foi revelado pelo Figueirense, mas não chegou a brilhar com a camisa alvinegra. Você se arrepende de ter saído cedo do clube e não ter tido a oportunidade de mostrar mais o seu futebol?

FV: Foi ótimo ter sido relevado no Figueirense! Eu aprendi muito no tempo que eu fiquei no clube. Tive grandes treinadores em cada categoria que passei. Eu não me arrependo de ter saído e acho que cada um trilha seu caminho e segue o que acha melhor para sua carreira. Para mim foi uma ótima decisão, mas muitos não fariam essa troca. Quando eu decidi sair, o Figueirense passava por problemas e nós, jogadores formados no clube, fomos deixados de lado. O importante para um atleta é jogar, para estar em evidencia. Por isso decidi sair, porque naquele momento eu não teria a oportunidade de mostrar o meu futebol. 

CF: Figueirense esse ano disputa a série B do Brasileiro. Tem acompanhado os campeonatos, tanto a série A quanto a B?

FV: Vejo muito pouco a série A e a B eu não acompanho nada.

Atacante pretende ficar mais na Eslovênia e voltar ao
Brasil após a aposentadoria./Foto: siol.net
CF: Por ser uma ex-república iugoslava, existe muita rivalidade com os outros países como Croácia, Sérvia, por exemplo?

FV: Tem sim, não parece que um dia eles foram um mesmo país. A rivalidade entre eles nos esportes é uma coisa bem forte, porém saudável. Eles não se desrespeitam e nem se agridem.

CF: Eu acredito que seja uma cultura muito diferente da brasileira, não é?

FV: A cultura deles é totalmente diferente. Os eslovenos são pessoas mais fechadas e mais complicadas de se fazer amizade. Eu tive um pouco de dificuldade para me adaptar aos costumes e hábitos deles como almoçar muito tarde. A comida por exemplo não tem tempero nenhum. Você quase não vê pessoas reunidas para comerem ou saírem juntas. Também tem um pouco de falta de higiene em relação aos desodorantes. Muitas pessoas andam com um cheiro muito forte de suor, até mesmo algumas mulheres. Mas hoje já me adaptei e considero a Eslovênia minha segunda casa.

CF: Já que você tocou no assunto, qual foi a sua maior dificuldade de apaptação?

FV: O inverno é super rigoroso aqui, sofri muito no período. Além de ser difícil fazer qualquer coisa nessa época, principalmente treinar e jogar.

CF: A ilha de Bled na Eslovênia foi considerada a mais bonita do mundo. Além disso, o país é um dos primeiros a produzir comida orgânica. Já teve a oportunidade de visitar o lugar ou comer esse tipo de alimento? O que mais você visitou e pode destacar do país? 
  
FV: Eu visitei a ilha de Bled, que é um dos pontos turísticos mais bonitos. Fui à caverna de Postojna, à de Predijama e visitei o lago de Bohjn. Fui também a dois lugares muito bonitos que são Portoroz e Piran. Eu posso dizer que a Eslovênia é de uma belíssima natureza. O turismo é movido pelas belezas que a natureza oferece. Mas ainda não experimentei a comida orgânica.

CF: Resumindo todas as suas experiências na Eslovênia e claro, no futebol do país, acha que é vantajoso para o brasileiro tentar a sorte aí? Porquê? 

FV: Sim, é muito vantajoso porque o Euro é muito mais valorizado do que o Real e o custo de vida aqui é muito mais baixo do que no Brasil. Eu chego até a ficar assustado quando vou para o Brasil e vejo os valores de certas coisas. Sem falar que a condição de vida que a Europa oferece é bem melhor do que a oferecida no Brasil, em relaçao a saúde, educação, segurança e infrainstrutura. E ainda tem a taxa de desigualdade social que é quase zero.

CF: Você hoje está casado. Pretende construir a sua família na Eslovênia ou na Europa? 
 
FV: Pior que não. Mesmo com tudo que a Europa oferece eu sinto falta da minha família e dos meus amigos e também do Brasil.

CF: Mas pretende continuar aí ou voltar para o Brasil? 
 
FV: Sim, eu quero estar por aqui até eu parar de jogar. Depois quero voltar para o Brasil e me estabelecer o mais rápido possível.
  
CF: Alguma história para relembrar?

Maior objetivo do atacante é garantir o futuro da família.
/ Foto: Arquivo Pessoal
FV: Teve uma que aconteceu logo quando eu cheguei. Eu não sabia falar nada e tinha acabado de começar as aulas de esloveno. Aí um dia fomos almoçar juntos em um hotel antes de um jogo. Logo após a refeição, eu queria agradecer ao garçom por ter me servido. Um colega me disse que eu deveria dizer ''hvala barko''. Só que isso significa ''obrigado bigodudo'' e eu sem saber de nada e achando que estava falando corretamente, disse isso ao cara. Ele ficou me olhando com uma sem graça e todos do time não paravam de rir. Até que me explicaram o que eu tinha tinha dito e também explicaram ao garçom (risos). No final ficou tudo bem.

CF: Eu gostaria que você dissesse quais são seus objetivos a serem alcançados?

FV: Bom, meus objetivos não são muito diferentes dos outros jogadores. Eu quero jogar a Liga dos Campeões, Copa do Mundo, jogar em grandes clubes europeus. Mas o principal é, quando eu encerrar minha carreira, ter a consciência de que eu fiz tudo o que eu podia, sem nunca me omitir e, sem dúvidas, garantir uma vida digna à minha família, que sempre estiveram ao meu lado e merecem tudo de melhor. Resumindo, meu objetivo não é conquistar o mundo e nem ser o melhor, eu quero garantir o futuro das pessoas que eu amo, e ser feliz a cada dia com o futebol que é a minha paixão. Deus me deu um dom e a oportunidade de, através desse dom e do meu sonho, viver e dar alegria para os que apreciam o futebol. 

Entrevista realizada em 30/09/2013, pela internet.
Críticas, dúvidas e sugestões: fiusa.caio@gmail.com   

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Entrevista: Tom Gilio

Tom Gilio destaca sua versatilidade como fundamental
para o sucesso na Bulgária./Foto: lokomotiv.hit.bg
Continuando a série de entrevistas com jogadores brasileiros espalhados ao redor do mundo, o blog do Caio Fiusa desembarca na Bulgária. É lá que Tom Gilio, volante de 27 anos, joga desde 2008. Após passagens pelas categorias de base do São Paulo e Palmeiras, Tom foi revelado pelo Botafogo de Ribeirão Preto. Há cinco anos no país europeu, o jogador já autou pelo Lokomotiv Plovdiv, Minyor Pernik e atualmente defende o Lokomotiv Sofia, clube da capital. Em entrevista exclusiva, o volante conta curiosidades da cultura búlgara e do futebol local. Além disso, ele revela momentos obscuros do futebol como a violência e o preconceito.

Caio Fiusa: Quando chegou ao país teve muitos problemas na adaptação? Os búlgaros têm algum hábito curioso?

Tom Gilio: Não tive problema não. Só senti muita falta do arroz e feijão. Mas de resto é tranquilo. A comida aqui é a base de frango, porco e batata. Eles têm a tradição de comer salada e tomar ''pinga'' com gelo antes do prato principal.

CF: Porque acha que está há tanto tempo no país? Quais são suas principais características dentro de campo que o fazem ser reconhecido?

TG: Sou um segundo volante que sai para o jogo, mas já atuei até como atacante. Tenho facilidade de jogar em outras posições. O jogador brasileiro no geral tem essa facilidade, ainda mais se for do meio para frente. O futebol brasileiro é muito mais técnico e em um nível bem superior. Aqui é muita correria e força física.

CF: Há cinco anos no país e na terceira equipe búlgara, como você avalia o futebol local? É vantajoso financeiramente, por exemplo, para os brasileiros?

TG: A diferença entre as estruturas dos clubes é grande, em questão de estádio, campo para treinos e salário. Financeiramente depende porque o Brasil está em um momento muito bom, perde para poucos países nesse quesito. De 5 anos para cá, evoluiu muito. O futebol búlgaro é bom para estrangeiros porque eles são mais valorizados do que os que nasceram aqui. Mas já rolou preconceito por parte dos jogadores búlgaros por conta disso. Mas eu recomendo mais como uma porta de entrada para a Europa.

CF: Esse preconceito é somente com ofensas ou chega a agressões?
 
TG: Não chega a agressão, mas rola muita coisa na base da trairagem. É mais pelas costas porque os búlgaros são pipoqueiros. Eles não falam na cara. Acontece racismo mesmo, chamam de ''macaco'' e tudo. Eu como sou branco passo desapercebido e vejo isso acontecer.

CF: Essa violência se estende para as torcidas? Como é comportamento dos torcedores? São violentos?

TG: Sim, bastante. As torcidas marcam brigas pela internet, uns 50 contra 50 e o pau come. Uma vez pelo Lokomotiv Plovdiv, a torcida do rival, o Botev Plovdiv, queria me pegar em um supermercado. Mas não chegou a ter agressões, só xingamentos. Até agora foi a situação mais tensa que vivi.

CF: Fora isso, os torcedores acompanham seus clubes? Costumam ir aos jogos fora de casa?

TG: Depende do clube. Não são todos que têm torcida. Mas em geral acompanham até porque o país é pequeno, são 600 km de uma ponta a outra. As cidades são próximas.

Sem apoio do antigo empresário, o jogador diz que volta
ao Brasil é complicada./ Foto: Arquivo Pessoal
CF: Ainda sobre esse assunto, o Brasil passa por um fervor em torno da seleção muito pela mudança de postura com o Felipão no comando, a proximidade com a Copa e o título da Copa das Confederações. Na Bulgária, há essa paixão pela seleção? E existe algum jogador que seja a referência para o povo?

TG: Antes sim. Está voltando porque a Bulgária tem chances de ir para a repescagem das Eliminatórias da Copa. Sobre o jogador, é o Stoichkov sem dúvidas. O Berbatov não quis jogar mais pela seleção e isso deu uma queimada nele. 

CF: E o time atual tem alguma grande estrela?

TG: É mais o conjunto. O treinador Lyuboslav Penev é a estrela do momento. Ele arrumou o time só com a garotada, o mais velho deve ter 27 anos. 
 
CF: Já são cinco anos fora; tem vontade de voltar para o Brasil? 

TG: Tenho muita vontade, mas sem empresário fica difícil. Sai há muito tempo e ninguém me conhece mais. Preciso de um empresário para fazer o meio de campo. Deus sabe das coisas e se tiver que voltar, vou ficar feliz.

CF: Estar sem empresário foi uma escolha sua?

TG: Sim, também. Eu não estava tendo o apoio necessário da parte dele.

CF: Você mesmo disse que as pessoas no Brasil não lembram de você e todo jogador sonha em jogar pela seleção de seu país. Por conta disso e por estar há tanto tempo na Bulgária, não pensou em tentar uma naturalização para jogar pela seleção local?

TG: Se tudo der certo, em novembro pego o passaporte. Ainda não recebi, vamos depois. A seleção está fechada, difícil entrar alguém, ainda mais estrangeiro. 

CF: Falando agora sobre o futuro do futebol búlgaro, recentemente a França foi pela primeira vez campeã mundial sub-20. Como anda o futebol do país em relação a novos talentos?

TG: Deixa muito a desejar, por isso não revela jogadores. Falta estrutura na base, não há estímulo para o jovem jogador.

CF: Sobre a cultura búlgara, o que você aprendeu sobre a história do país? Algum ponto turístico a destacar? O que um turista brasileiro precisa saber e conhecer?

TG: A Bulgária é um país de muita história. Plovdiv é uma das cidades mais antigas da Europa. Algumas cidades búlgaras têm mais de 3 mil anos e estão preservadas. A cultura é muito rica.
A Bulgária gira em torno da capital Sófia, mas no verão o litoral recebe muitos turistas de outros países por ser bonito e de baixo custo. Isso acontece porque a moeda, a lev, é o equivalente a 2 euros. Além disso, o custo de vida também é baixo. E eu destacaria os museus de Sófia e as estações de esqui no inverno.

CF: E durante todo esse tempo quais foram os momentos mais marcantes, que você destacaria dentro e fora de campo?

TG: No futebol foi o gol que fiz no clássico Lokomotiv Plovdiv x Botev Plovdiv. O estádio estava lotado e eu tinha acabado de chegar ao clube. Teve o gol da semana retrasada (veja o vídeo ao lado) também que foi o mais bonito da minha carreira. Na vida foi o fato de ter vindo sozinho para um país bem diferente e sem falar inglês. Tive que me virar e a questão do inverno também. Já peguei 27 graus negativos.

CF: Sobre o seu futuro, quais são seus planos?

TG: Quero sair para um time melhor, fazer meu pé de meia e ficar tranquilo depois do futebol.

Entrevista realizada em 12/09/2013, pela internet
Críticas, dúvidas e sugestões: fiusa.caio@gmail.com