sexta-feira, 24 de maio de 2013

Especial Futebol Alemão

Jovens talentosos são fruto da reformulação
nas categorias de base alemãs/ Arte: Mainara Assis
Neste sábado, Bayern de Munique e Borussia Dortmund decidem a Liga dos Campeões da Europa. Esta será a quarta vez que clubes do mesmo país fazem a final da competição e a primeira entre alemães. Para chegarem a esta partida, que acontecerá no estádio de Wembley, as equipes eliminaram Barcelona e Real Madri, os grandes favoritos ao título. O duelo alemão constata a evolução do futebol no país. Com investimentos nas categorias de base, a Alemanha colhe os frutos com uma safra de jogadores talentosos e se credencia como uma das grandes favoritas a conquista da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Abaixo você confere as entrevistas que o narrador e o comentarista do campeonato alemão nos canais ESPN, Rogério Vaughan e Gerd Wenzel, e o comentarista do site IG, Mário André Monteiro concederam ao blog do Caio Fiusa. Nelas, eles explicam a reformulação do futebol na Alemanha e analisam o pontos positivos da organização da Bundesliga, a liga principal.

Caio Fiusa: Quando, como e porque começou essa reformulação no futebol alemão?

Mário André Monteiro: A Alemanha viveu uma época de vacas magras desde a conquista da Copa do Mundo de 1990. No final da década 1990, a própria Federeção Alemã de Futebol criou alguns centros de treinamentos para revelar jogadores. Os clubes adotaram esse esquema. Então, a gente pode ver que esses novos jogadores regulam mais ou menos a mesma idade. Essa reformulação foi importante porque os clubes se conscientizaram e colocaram a Alemanha como favorita para a próxima Copa.

Gerd Wenzel:  Essa recomeço teve início em 2000, ano em que houve um fracasso da seleção alemã na Eurocopa, ficando em último lugar no grupo, com duas derrotas e um empate. A Federação Alemã de Futebol e a Bundesliga se reuniram para decidir o que fazer. Uma das medidas, talvez a principal, era a de que todos os times eram obrigados a ter a sua academia de futebol, com centro de treinamentos. Foi aí o ponto de partida para toda essa revolução.

CF: Tem diferença em narrar a Bundesliga, em relação aos outros campeonatos?

Rogério Vaughan: Total. Na Alemanha tem torcida. O torcedor faz questão de ficar em pé. Eles bebem e não tem nenhuma confusão. A gente foi transmitir o jogo entre Borussia e Real, deixou o carro no estacionamento e foi andando até o estádio, junto com aquela massa amarela. No meio da massa gritando com copos de cerveja na mão, tinham torcedores do Real Madri passando vestidos com a camisa do clube. E você não via nenhum tipo de ironia. Isso é um grande exemplo. Cultura e comportamento. Influencia inclusive no comportamento dos profissionais. Tudo é saudavel para o espetáculo. A torcida faz parte dela, acabou o jogo ela vai embora e segue a vida dela. No Brasil, você chega ao estádio preocupado.

CF: Percebeu um aumento da audiência do campeonato alemão?

Gerd Wenzel acredita que a organização financeira
da Bundesliga é um atrativo/ Foto: Divulgação ESPN
GW: Nós começamos a transmitir o campeonato em 1998, 1999. Eu lembro que nossa audiência ficava atrás da Premier League (Inglaterra), da Liga Espanhola e do Calcio (Itália). Logo depois da Copa de 2006, a coisa foi mudando de figura. Até porque, na Espanha se cristializou a disputa do título sempre entre Barcelona e Real Madri. Na Itália, houve uma decadência do futebol com escândalos de manipulação de resultados, racismo e estádios ultrapassados. A Itália perdeu uma grande oportunidade com a Copa em 1990 de renovar os seus estádios. E aí o que foi acontecendo? A Bundesliga foi tomando o lugar dessas ligas, ficando atrás apenas da Inglaterra, nos canais ESPN. Houve um aumento considerável da audiência.

MAM: No Brasil, até o ano passado nós tínhamos três emissoras transmitindo. Esse ano só teve a ESPN, então o brasileiro perdeu opções. Mas com o sucesso desses dois times e os brasileiros conhecendo melhor, deve crescer.

RV: Sempre houve um público cativo do futebol alemão no Brasil, seja pela colônia ou pelo futebol jogado. Mas esse público cresceu muito, por conta da Bundesliga ter se destacado entre as grandes competições, com altas médias de público. E também tem a organização. A Bundesliga é um evento para a família, por isso você vê muitas crianças e casais nos estádios. Naturalmente, o interesse vai aumentar. O campeonato alemão se tornou um grande porto seguro na Europa.

CF: De que maneira a Copa do Mundo em 2006, ajudou na evolução do futebol no país?

GW: Já se sabia que a Copa poderia ser na Alemanha. E qual era o pensamento? Nós não podemos passar vexame em casa, seja no ponto de vista estrutural, no da organização e muito menos no da seleção. Esse foi um dos grandes motivos para essa organização na seleção e no futebol alemão com novos objetivos.

MAM: Eu tinha muita preocupação em cima do comportamento, não só da seleção como da torcida, o orgulho dos torcedores. O Klinsmann, que era o técnico na época, conseguiu colocar um espírito vencedor, um sentimento patriota e os jogadores conseguiram fazer o time ir bem. De lá para cá, vem colecionando bons resultados apesar de nenhum título. Mas o orgulho em cima da seleção voltou, tanto para a Copa de 2014 quanto para Eurocopa em 2016, competições que esses jogadores vão chegar mais maduros.

RV: Conversando com o Paul Breitner, ele disse que o alemão leva tudo muito a sério. E o futebol também é. E eles aproveitaram a Copa do Mundo em 2006. Tudo isso é reflexo de um investimento na base e de contratações pontuais. Isso é fruto de um projeto de alguns anos. A Alemanha quis se abrir para o mundo e fez isso após a Copa. Hoje, é um futebol bonito e envolvente. O Bayern e o Borussia formam a base da seleção alemã, que em todas as Copas chega como uma das favoritas ao lado do Brasil, Argentina e Itália. Mas dessa vez, chega com favoritismo por causa do futebol apresentado. Hoje há quem diga que está um degrau acima da Espanha. 

CF: Uma das medidas para fortalecer a Bundesliga, foi o equilíbrio nas cotas de TV dadas aos clubes. Mesmo assim, o Bayern de Munique, que contrata muitos jogadores talentosos dos pequenos times, e o Borussia continuam um degrau acima dos outros, inclusive monopolizando a conquista do campeonato nos últimos três anos. É possível que isso se estenda ou existe algum clube capaz de se intrometer nessa briga particular?

RV: O Paul Breitner, quando esteve aqui, disse que o objetivo do Bayern é ultrapassar o Barcelona e se tornar o maior time do mundo. Essa contratação do Mario Gotze por exemplo, sem dúvida enfraquece o Borussia. Por ter muito dinheiro, o Bayern acaba sendo o predador, mas eu acho que eles vão resolver isso da melhor maneira possível. Mas acredito que essa polarização vai acontecer cada vez mais forte.

Para Mário André Monteiro, alemães não devem só
se contentar com as vagas europeias/ Foto: Arquivo Pessoal
MAM: Historicamente, o Bayern consegue contratar melhor dentro da Alemanha por ter mais dinheiro. A própria federação não permite que os clubes façam loucuras financeiras. O clube tem um determinado dinheiro guardado e não pode gastar mais do que ganha. Os clubes tem uma saúde financeira boa e nenhum deles é devedor. O Bayern contratou o Martínez na temporada passada e agora o Gotze porque tem condições para isso. É difícil falar que o Bayern vai monopolizar porque nas últimas cinco temporadas foram três campeões diferentes. Isso mostra o equilíbrio. A tendência é que o Bayern faça isso, por já ter um grande time e ter se reforçado, mas futebol é resolvido dentro de campo.

GW: É possível que aconteça. Dos 50 campeonatos da Bundesliga desde 1962/1963, o Bayern ganhou 22. Mas sempre apontam outros times. Em 2004, era o Werder Bremen, mas não deu continuidade. O mesmo aconteceu com o Stuttgart depois, que foi pior ainda. O mais importante é que o clube persiga o projeto. E foi o que o Borussia fez. É a mesma coisa que Schalke 04, Bayer Leverkusen e Hamburgo, só para citar os mais tradicionais, devem fazer. A questão não é ganhar um campeonato, mas se tornar grande. E o clube só se torna grande em primeiro lugar, investindo nos times de base. Depois, ter uma saúde financeira, não permitir que o dinheiro que você ganhe seja utilizado em especulação financeira, mas que seja aplicado no próprio clube. Se crescer, no caso do Borussia Dortmund que já é um projeto, vai ser um adversário a altura do Bayern de Munique nos próximos anos. O Bayern tem esse projeto há muito tempo e se outros clubes fizerem vão fazer frente aos dois.

CF: Qual o grande atrativo ou o diferencial do futebol alemão?

RV: O futebol apresentado, principalmente pelo do Borussia Dortmund, que é para frente. Isso chama atenção, inclusive da garotada. Os campeonatos europeus atraem muito os brasileiros. Os jogos são transmitidos nas TVs a cabo, mas o público não vê só isso. Ele vê a bola rolando em gramados impecáveis, organização, estádio lotado e festa da torcida. Então, cria uma expectativa e uma curiosidade que fazem as pessoas o acompanharem

GW: O grande atrativo em primeiro lugar é: o jogador quer saber não apenas quanto ele vai ganhar e se ele vai ganhar. Nós temos notícias de Ligas que não pagam em dia. O próprio Málaga, teve um problema sério. Na Alemanha, não importa o clube onde você esteja, no dia primeiro o dinheiro vai estar depositado na sua conta. A segunda questão é a que o jogador vai trabalhar em um campeonato extremamente organizado com estádios cheios. E qualquer jogador tem uma outra motivação com estádio cheio. A média é de 42 mil pessoas por jogo. A organização, o pagamento em dia, estádios cheios e todo o suporte que o clube dá aos jogadores atraem os estrangeiros. Agora com a chegada de Pep Guardiola, muitos jogadores vão se perguntar o porquê dele ir para a Alemanha. Ele vai ser uma isca para outros jogadores.

MAM: Tem um dado de 2002 que diz que 60% dos jogadores eram estrangeiros. Era um número muito alto. Desde então, os clubes passaram a investir mais em jogadores alemães e isso faz com que a torcida fique mais perto do clube e veja os jogadores mais de perto. O torcedor que viu o jogador crescer dentro do clube como o Thomas Muller, Mario Gotze, Toni Kroos, querem acompanhar eles crescendo no time profissional. Esses valores fazem com que a torcida acompanhe o clube. Além da estrutura que a Federação dá para os clubes. Hoje em dia os estádios são os mais modernos do mundo e a arrecadação dos clubes gira em torno do que é consumido dentro do estádio com produtos e merchandising.

CF: O futebol espanhol é considerado o ''futebol moderno'',vem de importante conquistas e tem dois dos principais clubes do mundo, assim como os dois melhores jogadores do mundo da atualidade. Mas, nas semifinais, dos quatro confrontos foram três goleadas alemãs. O futebol alemão está ultrapassando o espanhol?

GW: Eu não diria nesse momento que o futebol alemão é o melhor nessa época. Ele está em grande ascensão e vai ter que se firmar. Não está na hora de descartar o Barcelona, o Real Madri, o Manchester United. A Alemanha veio como uma grande força mas se vai continuar, só o tempo vai dizer. O Barcelona dominou e ainda domina, apesar de estar fora da Liga dos Campeões. Na Alemanha, além da habilidade dos jogadores alemães, eles alinham isso a um grande rigor físico, então talvez essa seja a grande novidade no futebol europeu: a habilidade técnica que é 50%, uma mudança iniciada em 2000, e 50% de aprimoramento físico. Além do mais, os jovens jogadores lançados em 2004,2005 e 2006 estão amadurecendo para conquistar um título internacional. O primeiro será neste sábado, independente de quem ganhe o jogo. E o segundo pode ser na Copa do Brasil em 2014. A Alemanha pode superar as outras forças do futebol mundial.

MAM: O futebol espanhol teve um momento mágico porque foi revolucionário. Mas os outros times entenderam esse jeito de jogar e começaram a fazer frente. Os jogadores ganhando experiência dentro dos clubes podem levar isso para a seleção, que bateu na trave nas Euro e na Copa. Eu espero e acredito que o futebol alemão possa fazer frente e tente buscar o título.

RV: Ninguém consegue se manter imbatível. Tem que ter uma renovação. Houve um predomínio espanhol e a Alemanha vinha se preparando com a base dela. Eu me refiro à seleção. Em 2010, Alemanha não estava na ponta dos cascos e a Espanha já vinha de um título de Eurocopa. Entre os clubes, a Alemanha cresceu muito, principalmente no coeficiente europeu. Hoje, ela ultrapassou a Itália e tem quatro vagas na Liga dos Campeões. Eu vi uma entrevista do presidente Javier Tebas, da Liga Espanhola, onde ele disse que os espanhóis tem que tomar como exemplo o campeonato alemão, porque os times são saudaveis financeiramente e não fazem loucuras. Isso vai resultar numa sequência muito boa para os times e para a seleção da Alemanha, por conta desses frutos que eles plantaram lá trás. 

CF: Recentemente a Alemanha reconquinstou uma vaga que dá classificação a Liga dos Campeões da Europa. Você considera isso um incentivo a mais para continuar crescendo ou um objetivo conquistado?

MAM: Considero um objetivo, porque a Alemanha já tinha essas quatro vagas. É importante manter para que o futebol interno continue crescendo. E não basta só ter quatro times na Liga dos Campeões e três na Liga Europa, é necessário ir bem. Na Liga dos Campeões, os três chegaram as fases finais. Os clubes não podem deixar essa peteca cair. É um objetivo para não só manter as quatro vagas, mas passar a Espanha e a Inglaterra no coeficiente na Uefa e ser a melhor liga no ranking.

GW: Foi um objetivo conquistado. O próximo é ultrapassar a própria Inglaterra. Se você olhar o ranking, a Alemanha está coladinha. Em termos de vagas não vai fazer diferença nenhuma. É o objetivo ser a primeira colocada. Vai ser um embate muito difícil com a Inglaterra. Superar a Itália era um objetivo e foi conquistado e agora é a Inglaterra e depois a Espanha. O Paul Breitner deixou muito claro isso, que o objetivo é ser a melhor.

CF: O que o Brasil pode pegar de experiência com futebol alemão?

MAM: É difícil, mas esse modelo de categoria de base é o que falta no Brasil. Alguns clubes grandes não têm isso. Essa estruturação não só do profissional, mas da base também é importante para fazer algo parecido com o que é feito na Alemanha. E principalmente, os políticos que trabalham com o futebol se conscientizarem de que: futebol é política? É, é dinheiro, mas também é lazer e cultura. Então eles têm que fazer alguma coisa para tornarem os campeonatos mais atrativos e evitarem que os clubes fiquem endividados. E claro, tem que aprender muito com os grandes países europeus. Aprendendo é o primeiro passo, porque matéria prima o Brasil tem de sobra e fazendo isso, pode monopolizar o futebol tranquilamente. 

Rogério Vaughan acredita que o Bayern é o
favorito para a grande final/ Foto: Divulgação ESPN
RV: Comprometimento, seriedade. O Brasil tem dinheiro, tem jogadores que brotam todos os anos com talento. O que falta no Brasil é seriedade e comprometimento. Na Alemanha, eles são compromissados. Em casos isolados ocorre corrupção, mas no caso do Brasil isso está enraizado na cultura brasileira e junto a isso a impunidade. O Brasil vive uma situação privilegiada em relação até mesmo a países europeus. Falta planejamento. Continuamos a ser o país do jeitinho, da improvisação. Estamos às vésperas de uma Copa do Mundo e o país como está? Muitos projetos de mobilidade urbana para melhorar o país foram cancelados. Temos casos de corrupção, superfaturamento, todos esses detalhes que fazem parte da cultura brasileira servem como atraso, não só para o futebol, mas para o país em geral.

GW: Você precisa saber se os dirigentes querem aprender. Existe uma corrupção inerente ao futebol brasileiro. Existe um apetite para se fazer grandes projetos e grande empreenteiras. Não há nenhum interesse em fazer estádios baratos, quanto mais caro melhor, porque aí todo mundo pode ter a sua participação. É preciso haver uma mudança de mentalidade no futebol brasileiro, seja na organização, ou na administração dos clubes ou das federações. Enquanto não mudar, não teremos estádios baratos, muito mais caros do que os construídos na Alemanha. 

CF: Para o jogo deste sábado, tem favorito?

GW: Não tem favorito. Estou desconfiado de que esse jogo possa ser decidido em um pequeno detalhe. Se tem um time que sabe enfrentar o Bayern de Munique, é o Borussia Dortmund. Nos últimos seis jogos pela Bundesliga, foram quatro vitórias do Borussia e dois empates. O Bayern ganhou na Copa da Alemanha e ficou por conta disso.Vai ser um jogo muito equilibrado. Quem pode fazer a diferença são um dos craques, como o Ribery, que está em espetacular forma. Do lado do Borussia, o Marco Reus, que hoje desponta como o maior talento da equipe.
  
RV: O Bayern é favorito, mas o Borussia pode desequilibrar. O Bayern chegou em duas finais e está com esse trauma. Em 2010 tudo bem, mas ano passado perder em casa pro Chelsea...essa ferida ainda está aberta. Se tem um time que pode desestruturar o Bayern é o Borussia. Na história recente dos confrontos ele atrapalhou muito o Bayern. O Bayern está com essa pressão de bater na trave novamente. Se o Borussia fizer 1x0, isso vai pesar muito. As outras finais inevitavelmente vão servir como pressão para os jogadores.

Entrevistas realizadas entre os dias 18 e 21/05/2013 por telefone.
Contato: fiusa.caio@gmail.com

domingo, 12 de maio de 2013

Entrevista: Planta e Raiz

Novo trabalho do Planta e Raiz, do vocalista
Zeider Pires (ao centro) é um projeto duplo/ Foto: Divulgação

Com 15 anos de carreira, a banda de reggae Planta e Raiz está lançando seu oitavo CD intitulado Bora Viver/ De Sol a Sol. Apesar das mais de 500 mil cópias vendidas co todos os álbuns, o vocalista Zeider Pires, acredita que o ritmo ainda tem muito a crescer. Abaixo você confere a entrevista completa que ele concedeu ao blog do Caio Fiusa. Nela, Zeider comenta a situação atual do Reggae no Brasil, critica a ausência de algum representante do estilo musical no Rock in Rio e fala sobre preconceito.

Caio Fiusa: Como você vê o reggae hoje no Brasil?

Zeider Pires: O Reggae está crescendo muito, as bandas estão se profissionalizando, fazendo os trabalhos com a melhor qualidade possível. As mídias estão começando a notar que não é um estilo que só fala de droga e coisas nada a ver, mas sim da libertação, do espírito do homem e de Deus. As pessoas estão começando a assimilar agora. Então, daqui pra frente vai crescer cada vez mais.

CF: Esse sábado foram comemorados 32 anos da morte de Bob Marley. Qual a importância dele para quem curte o Reggae?

ZP: A morte dele, tão jovem ainda, com 36 anos, ao mesmo tempo que interrompeu uma vida, deixou um legado riquíssimo para os outros. São várias mensagens. Os olhos do mundo inteiro se voltaram para a Jamaica. Ele foi um divisor de águas. A partir disso, todo mundo valorizou a arte, mas ao mesmo tempo foi uma perda irreparável.

CF: Você acha que é possível surgir outro fenômeno no Reggae como Bob Marley?

ZP: Acredito que sim, mas enquanto as pessoas focarem no parâmetro, no padrão Bob Marley não vão conseguir. Bob Marley foi só um. Existem várias bandas muito boas pelo mundo. O que dificulta é mais o lance da mídia mesmo, em popularizar, botar para tocar em rádio. É um som massificado no mundo inteiro, mas não tem uma popularização regional. Nas regiões, o Reggae é mais underground, mas se juntar o que rola em todo o mundo, fica um negócio muito grande. Existem vários paradoxos aí. No próprio Brasil, temos bandas muito grandes como Natiruts e Ponto de Equilíbrio, o Cidade Negra bombou e foi uma das maiores nos anos 90 e tem o SOJA representando no mundo também.

CF: Você citou o SOJA, que hoje talvez seja uma das maiores bandas de Reggae. Você acha que eles podem elevar o Reggae a outro patamar?

ZP: Acho que eles têm a vantagem de cantarem em inglês, terem crescido em uma estrutura maneira. A cultura americana insere a música desde o começo. Quem quiser ser músico, vai ser. Tem essa vantagem de ser primeiro mundo, mas vejo que o movimento não para de crescer e isso não é em decorrência só deles. Todas as bandas que estão lutando, estão sendo o alicerce para trazer o reggae para cima.

 CF: Você falou sobre a mídia. Ela atrapalha ou ajuda?

ZP: Quem faz o Reggae, faz porque ama. Quem vai aos shows, cola com a gente, vai porque ama. Acho que a mídia atrapalha com as músicas banais e sujas e atrapalha também o reggae em si, porque desvia o foco da molecada.

CF: E a questão das drogas? O Reggae ainda sofre muito preconceito?

ZP: Preconceito é de quem não tem informação. Quem escuta a música e presta atenção, vê que é algo muito maior, se comunica com todo tipo de gente. O Reggae fala com aquele cara que está procurando um caminho, com um pai que quer educar o filho, a galera tem que parar para pensar antes de sair falando.

CF: Falando sobre preconceito ainda, existe algum com a galera que curte o surf music, por exemplo, ou até mesmo algum outro?

ZP: Mano, acho que toda tribo tem um momento de ser radical. Aquela hora que a pessoa diz: eu curto reggae, não vou ouvir samba. Isso é imaturidade das pessoas. Uma hora as pessoas crescem e vão ver o que é música boa e o que é ruim.

CF: Queria que você falasse agora do novo CD...

ZP: Esse disco foi gravado em nosso próprio estúdio, produzido por nós mesmos e mostra a nossa independência. Assumimos o comando da nave e estamos dando continuidade. O disco é bem abrangente, pega várias vertentes, tem tudo para o público. A evolução é isso, abrir a mente. Somos brasileiros e temos vários ritmos, então pegamos o Reggae e juntamos com os sons que a galera curte.

CF: Na música Cante a paz, vocês fazem uma crítica social, a respeito da violência. Acha que a música perdeu isso?

ZP: Acho que não. São momentos que você vivi e se depara. Não dá para você ficar toda hora falando do mesmo assunto, vai soar estranho. No caso dessa música que eu compûs em 2000, eu tinha chegado do ensaio e estava rolando umas imagens de guerra na televisão. Aí eu comecei a chorar de raiva, peguei o violão e fiz. É questão de momento, tem hora que você está amando e vai falar de amor. Não pode ter barreira para o que vai ser comunicado. Não importa se você sente amor, importa se ela é verdadeira.

CF: Você fez uma parceria com o Chorão, do Charlie Brown Jr, em Gueto do Universo. Como estava a relação de vocês antes da morte dele?

ZP: A gente se trombava muito pela estrada e pelos camarins. Fazia tempo que a gente não se via, não se encontrava. Chorão era um grande cara. Infelizmente mais uma perda, mais uma história interrompida.

CF: O Rio de Janeiro vai receber este ano o Rock in Rio, um grande festival internacional e o reggae não está representado. O que pensa sobre isso?

ZP: Isso aí é maior panela. Esse Rock in Rio aí virou uma fábrica de dinheiro. É um negócio lindo e maravilhoso, mas infelizmente está vindo muito gente do pop. Isso foge do parâmetro do festival, mas tudo bem, a gente continua trabalhando e quem sabe um dia estaremos lá também.

CF: Para terminar, queria que você dissesse qual a peculiaridade do Reggae?

ZP: O Reggae é uma música que eleva, que vem para unir, para alertar e para libertar. Nunca você vai ouvir um reggae estimulando a violência, alguma coisa ruim. É uma música que traz as coisas boas para perto e fala de evolução.

Entrevista realizada quinta feira 09/05, por telefone
Contato: fiusa.caio@gmail.com

domingo, 14 de abril de 2013

Entrevista: Rodriguinho

Novo DVD de Rodriguinho traz um filme
com a vida do cantor./Foto: Pedro Zuazo
Rodriguinho apareceu para o Brasil no final dos anos 90 integrando o grupo de pagode Os Travessos. Em 2004 seguiu carreira solo. Hoje, aos 35 anos, além de cantar e compôr, atua como produtor. Em turnê com o novo CD ''O mundo dá voltas'', ele já é sucesso nas rádios com a música homônima em parceira com o rapper MV Bill. Abaixo você confere a entrevista exclusiva que ele deu ao blog do Caio Fiusa, onde fala das mudanças na carreira e do novo trabalho.

Caio Fiusa: Queria que você começasse falando sobre a sua nova turnê.

Rodriguinho: Estou com a minha nova turnê ''O mundo dá voltas'' e basicamente todos os shows consistem na mesma apresentação. Eu diminuo somente quando a casa de show não suporta minha estrutura. Eu estou trabalhando uma fonte de interação, porquê ''O mundo dá voltas'' é um filme da minha infância, da minha vida. Eu tento levar isso para o palco com os clipes. Estou levando isso para a estrada para galera ver o que vai ser o DVD.

CF: Como surgiu a ideia de fazer um filme através dos clipes?
  
Rodriguinho: Foi uma ideia minha. Videoclipe traduz a música e hoje em dia o comércio não é tão grande. Não existe muito isso de vender o videoclipe. Você vê mais na televisão, ele é tratado como um bônus e eu estou querendo tratar como um trabalho de carreira. O DVD tem 13 músicas, sendo 10 videoclipes e 6 formam um filme com continuidade.

CF: E o convite para a participação do MV Bill?

Rodriguinho: Eu sou paulista e a veia do rap, hip hop, r&b é muito forte aqui. Sempre gostei muito e tento colocar no meu trabalho. Quando eu escrevi a música, achei que no final eu precisava de um rap. Achei que era a hora para juntar com alguns nomes do rap. No ''O mundo dá voltas'' foi o MV Bill, que eu acho que é um dos maiores nomes do rap nacional. No ''Minha Diretriz'' foi o Pregador Luo, que é o maior rapper gospel. Tem o meu irmão também, ele canta uma outra música. Então achei que era a hora para essa abertura, é um trabalho mais maduro, não é uma onda. Quando as coisas estão acontecendo no momento, em ascensão, tudo parece onda. Era uma hora legal até para chegar nas pessoas e pedir para cantar junto já com uma base.

CF: Você tem feito parcerias com artistas de diferentes estilos musicais, caso do MV Bill agora e o Léo Santana. Isso mostra que hoje você não está preso a somente um gênero musical?

Rodriguinho: Em relação ao estilo musical não tenho uma preferência. Todas as músicas em que participo, são minhas. Não fujo do meu estilo. Só participo se tiver a ver comigo. Quando me chamam para participar, peço para fazer a música. Por isso acho que a parceria com o Léo Santana foi muito legal, com o MV Bill a música já estava pronta, ele veio fez o rap e abrilhantou mais ainda. O Thiaguinho é meu parceiro de composição, então não tem nem o que falar.

CF: Você acabou de voltar de viagem dos EUA. Como foi lá?

Rodriguinho: Eu estava de férias. Aproveitei para gravar um clipe, já que a atriz foi junto e filmamos em Los Angeles e Las Vegas. Vai ficar muito rico esse trabalho em relação a imagem, captação, tem muita coisa boa. Faço alguns shows lá, mas nunca para esses lados, é sempre Nova Iorque, Nova Jérsei e Miami, que tem a concentração de brasileiros.

CF: Hoje você já trabalha como produtor também, inclusive na carreira do seu irmão. De onde veio essa vontade e como tem sido a experiência?

Rodriguinho: Na realidade a vontade de ser produtor veio quando eu comecei a compôr, porque algumas músicas não ficavam do jeito que eu queria. Quando você compõe uma música você pensa no final dela, em como ela vai ficar gravada e geralmente não acaba ficando. Comecei a me dedicar, produzi alguns artistas e foi dando certo. Hoje divido a produção com o Wilson Prateado, que foi quem me ensinou 90% do que eu sei. O disco do meu irmão era para ser uma produção minha, mas chamei ele (Prateado) por causa da experiência, know-how, pelo nome. É bom porque você sabe o que quer e o trabalho fica com a sua cara. Conheço meu irmão muito bem, então sei até aonde posso ir com ele. A função do produtor é conhecer o produto com o qual está trabalhando. Tem muito produtor que transforma o artista no que ele (produtor) pensa, não no que o artista é. Eu procuro estudar o artista para manter uma linha. Isso melhora na minha composição e na apresentação.

CF: Quem vê o Rodriguinho hoje e compara com a época de Os Travessos percebe uma mudança na aparência. E na sua personalidade, o que mudou?

Rodriguinho: Tudo vai mudando. Você vai ficando adulto, são 35 anos de idade e 25 de carreira. Uma hora você tem que se assumir e fazer o que você deseja, não o que a mídia quer. No Os Travessos tinha aquele lance com as meninas de ser tipo um sex symbol, hoje eu não penso mais nisso. Se vier, é consequência, meu foco é na música.

 CF: Percebe um público renovado ou ainda tem bastante gente da época de Os Travessos?

Rodriguinho: É bem diferente hoje. No Os Travessos tinham muitas meninas, o grupo tinha um formato boy band, né? Era muita mulher. Os homens não curtiam muito. Hoje meu público masculino é muito forte, gostam muito do som e eu percebo que quando vão ao show é por causa do som. As músicas que seguram o público. Aquelas menininhas que curtiam antigamente, hoje já são casadas com filhos e levam os maridos. Deu uma mudada. Eu, particularmente, gosto muito mais do público atual.

CF: Você ainda canta as músicas de maior sucesso do grupo, sempre as coloca nos shows?

Rodriguinho: Não tem como não cantar. Não quero fugir disso. O Rodriguinho existe por causa disso. Procuro levar Sorria que eu estou te filmando aonde quer que eu vá.

CF: Em relação ao Os Travessos, hoje você acha que o samba e o pagode são mais aceitos?

Rodriguinho: Hoje é muito aceito. Todas as classes curtem. Da minha época para cá está muito melhor. Apesar disso, os que estão fazendo sucesso são os de sempre. A gente acaba se renovando dentro da nossa carreira. Não teve uma grande revelação nos últimos cinco anos. O último foi o Turma do Pagode, mas não é novo. Eu que sou de São Paulo já conhecia há tempos.

CF: Em uma declaração, o Thiaguinho disse que contribuiu para a história do samba e isso gerou muita polêmica. Você acha que distorceram o que ele quis dizer?

Rodriguinho: Distorceram o que ele disse. Ele contribuiu sim, não tem como negar. Se o samba está nesse nível de cachê, de 150, 200 mil é por causa do Exaltasamba. O grupo abriu esse leque de cachês astronômicos, de levar a massa para curtir, de entrar em todas as classes sociais. O Thiaguinho levanta a bandeira do samba. Ele contribuiu e vai continuar contribuindo, pelo o que eu conheço dele. O Thiago é muito talentoso. Quando alguém está no momento, as pessoas ficam esperando acontecer alguma coisa só para criticar. Ele está provando que é talentoso.

Entrevista realizada por telefone em 10/04/2013
Contato: fiusa.caio@gmail.com

sexta-feira, 29 de março de 2013

Entrevista: Carrossel de Emoções

Carrossel de Emoções lançará CD em breve./Foto: Divulgação
Criado com o propósito de resgatar os grandes sucessos do funk da década de 90 ao som de samba, o grupo Carrossel de Emoções, já colhe em pouco tempo o sucesso de ser o primeiro bloco funk do Brasil. Composto por 19 integrantes, já acumula apresentações em programas de televisão e shows em diversos estados. Abaixo você confere a entrevista exclusiva que um dos cantores do grupo, Fernando Guina deu ao blog do Caio Fiusa.

Caio Fiusa:
São apenas 6 meses de grupo e vocês já estão fazendo bastantes shows, até mesmo fora do Rio. Apesar do funk ser um estilo musical bem carioca, nos outros estados o público sabe as músicas, canta junto?

Fernando Guina:
Na semana que vem a gente completa 50 shows. Já tocamos para 20 mil pessoas em todo o Brasil, lugares como Brasília, Fortaleza, São Paulo e vamos tocar em Florianópolis nessa sexta feira. Por incrível que pareça as pessoas sabem. Em Fortaleza, tocamos semana retrasada para 3 mil pessoas, ingressos esgotados e cantaram do início ao fim. Claro que em alguns lugares as pessoas conhecem menos, mas região Sudeste e até mesmo no Nordeste a galera conhece.

CF: Por ser o primeiro bloco funk do Brasil, esperava a receptividade do público em tão pouco tempo? E como está sendo o crescimento do grupo?

FG: Com certeza não. Imaginava que fosse fazer um sucesso, mas não dessa forma. Nós fomos ao Big Brother (grupo se apresentou na Festa Folia) e ao Esquenta, ontem gravamos um programa ao vivo na FM O Dia e já estamos gravando um CD com as participações do Buchecha e do Bruno Cardoso do Sorriso Maroto, que vai entrar na rádio em breve. Começou como uma brincadeira e virou uma coisa séria. Hoje, já é uma empresa com alguns funcionários. Estamos com agenda lotada até agosto, fim de semana disponível não tem mais.

CF: Fale mais sobre o CD e a participação do Bruno Cardoso. Já existe projeto de lançar um DVD também?

FG: O Bruno Cardoso está produzindo o nosso CD. Nós vamos lançar uma música composta pelo Nico Andrade que fez Assim você mata o papai. Estamos com uma galera bem forte para fazer esse trabalho dar uma bombada. E DVD ainda estamos estudando, mas com certeza vai sair esse ano.

CF: E o Buchecha?

FG: O Buchecha é padrinho oficial do bloco. Ele é meu amigo pessoal, nos levou ao Esquenta e vai gravar a música Carrossel de Emoções com a gente.

CF: Além de você, o Carrossel de Emoções tem mais três cantores. Tem alguma diferença musical, cada um tem as suas músicas já definidas?

FG: Tem a diferença no estilo visual. Eu faço o estilo mais playboy, por exemplo. A gente vai se complementando. Na questão vocal não tem nenhuma diferença, geral canta tudo. Temos o repertório ensaiado para cada um, mas nos shows sempre rola um improviso.

CF: Como foi a adaptação do funk para o samba?

FG: São ritmos que se complementam, não é muito complicado. O mais complicado é ensaiar a bateria. A gente teve que fazer muitos ensaios para chegar ao ideal, isso veio com o tempo. Hoje, posso dizer que está bem redondo.

Guina acredita em uma apresentação
do bloco no Rock in Rio./Foto: Divulgação
CF: No grupo tem um DJ. Qual a participação dele nas apresentações?

FG: O DJ faz umas interações no meio das músicas, abre e fecha os shows e na hora do improviso solta o batidão.

CF: A formação mescla integrantes com experiência em blocos como Bangalafumenga, Rio Maracatu e AfroReggae. Isso foi pensado para criar um grupo bem diversificado?

FG: Não. As pessoas que foram nos procurando lá no começo, um foi chamando o outro. Toda essa galera tem uma vivência forte em bloco. Nosso mestre em bateria foi por muito tempo repique número um no Monobloco. Às vezes a galera toca em mais de um, mas agora estão mais com a gente por conta da agenda.

CF: Em uma entrevista ao O Globo, vocês disseram que o funk foi o único ritmo que não esteve no Rock in Rio. Porque acha que isso aconteceu? Acredita em um dia tocar lá?

FG: De repente as pessoas não enxergam o funk de uma forma tão grande para estar em um festival como o Rock in Rio. Mas não me surpreenderia se a gente fosse, já está tendo um tipo de conversa. O Monobloco já tocou e acabou abrindo uma porta. Antes de funk, somos um bloco, tentamos vender essa imagem de ''bloco funk''. Nós não somos MC´s.

CF: Acha que essa mistura entre samba e funk facilita o crescimento de vocês?

FG: Acho super viável. A gente vai fazer o encerramento de um festival de rock em julho, o Fest Valda no Circo Voador. É um concurso de bandas independentes e nós fomos escolhidos através de uma votação. A galera abraça a causa, mesmo sendo funk. Acho que por ser um bloco que faz essa brincadeira as pessoas curtem. Não vejo nenhum problema de tocarmos em um festival como o Rock in Rio, que já está se abrindo para outros estilos.

Entrevista realizada quarta feira 27/03/2013 por telefone
.
Críticas, dúvidas e sugestões: fiusa.caio@gmail.com

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Entrevista: Armandinho

Falta de tempo livre é a principal dificuldade na carreira
independente de Armandinho./Foto:João Victor Fiuza
Apesar do afastamento da mídia nacional, Armandinho segue fazendo shows em grande parte pelo sul do país e até mesmo na Argentina e no Uruguai. O gaúcho alcançou o auge da carreira em 2006, com o sucesso de Desenho de Deus. Artista independente, ele conta as dificuldades da carreira e da ausência na função de pai. Atualmente, está em seu quinto CD e segundo DVD. Abaixo você confere na íntegra a entrevista que o cantor deu para o blog do Caio Fiusa, após um show nas areias de Itacoatiara, em Niterói.

Caio Fiusa: Qual a diferença entre o primeiro DVD, gravado em Balneário Camboriú, para esse agora em Buenos Aires?

Armandinho: O primeiro DVD é um momento mais popular. O segundo é mais em função da mudança da banda, pegou a personalidade dela, que é mais rockeira. A minha banda antiga tinha mais uma pegada da MPB que eram os shows que fazíamos no início da carreira em barzinhos. Tocávamos Djavan, Gilberto Gil e outros da MPB e devido à fromação rock n´roll da nova banda, eu acho que é um trabalho menos popular. 

CF: Porque a escolha de não mexer muito na parte técnica?

Armandinho: Resolvi mostrar o show como ele é. Às vezes as pessoas querem fazer um trabalho perfeito querendo cortar coisas que são naturais, que os fãs que vão assistir acabam vendo na hora. A entrada dos roadies (equipe de organização dos shows) no palco eu acho bacana porque eles fazem parte da história e da personalidade de uma banda, então quero que eles apareçam.  Os roadies estão ali no dia a dia, conversam com os músicos, estão dentro do ônibus. Na hora que eles estão trabalhando, acho legal mostrar. Fizemos questão de não esconder.  As falhas fazem parte do espetáculo. Ninguém é perfeito. 

CF: Quais as dificuldades de ser independente?

Armandinho: Independente é difícil, mas hoje com as redes sociais está mais fácil que antes. O mais difícil é administrar o escritório. Não ter mais tempo livre na tua tarde para tocar violão, ensaiar, por estar dentro de um escritório tratando de assuntos que não devia, é complicado. Aí, dá 18h e eu estou carregado de coisas burocráticas do dia a dia de um trabalho. É difícil. Se eu pudesse me livrar da administração do escritório, me livraria. Não é muito saudável para um compositor.
  
CF: Todas as músicas representam um momento da sua vida? Queria saber se você pode dizer a história de Pela Cor do Teu Olho.

Armandinho: A maioria. Acho que não deveria (risos).

CF: Estar longe da mídia é algo que te deixa chateado ou você já encara com naturalidade por ser um meio muito competitivo?

Armandinho: Estava assistindo ao show do Stevie Wonder em casa e vi a área vip com vários artistas e pensei ‘’Poxa, como eu queria estar lá.’’. Sinto um pouco de falta. Não precisa estar sempre com uma super exposição, mas de vez em quando ir lá, fazer um programa bacana, é bom. A gente consegue atingir um maior numero de pessoas com a televisão. Artisticamente falando, a televisão é um palco para milhões de pessoas. Se me convidasse para um programa, eu certamente iria. A vida é feita de ciclos e nós temos que respeitar. Se tiver que voltar, eu volto, se não eu sigo o meu caminho. 

CF: Ao longo da semana, falando com o Claudio Diel, ele contou que você estava muito abalado com a tragédia em Santa Maria. Queria que você tentasse explicar como foi essa semana.

Armandinho: Não divulguei o show de hoje (03/02) em nenhum momento nas redes sociais, procurei nem tocar no assunto, não transmitir isso para o público que estava muito feliz ali. Eu pensei em parar, prestar uma homenagem, mas a galera estava com uma vibe positiva. Foi um absurdo o que aconteceu. Fui escolhido pelo povo de Santa Maria para tocar no aniversário de 3 anos da boate, em julho. Tenho um envolvimento com a cidade. Eu fiz uma visita ao Hospital do Câncer Infantil de Santa Maria que é referencia no Brasil e fui tocar para as crianças. Foi uma das experiências mais fortes da minha vida. Vendo os vídeos e os aplausos, fico pensando ‘’Esse aplauso pode não estar mais aqui’’. Cancelei um show sexta (01/02/13) e o Planeta Atlântida foi cancelado, que eu achei uma atitude nobre do grupo RBS. Apesar do prejuízo que eles tomaram, eles vão ganhar por causa da atitude.

CF: Já pensou em fazer alguma música em homenagem às vítimas?

Armandinho: Não deu tempo. Essa semana foi tão pesada por conta disso, o cancelamento do show de sexta também. Não é fácil cancelar um show, a gente tem um contrato. O cara gastou com panfleto, mídia de rádio, aluguel do clube e de repente eu ligo para ele e digo ‘’Não vou mais tocar.’’. Quem vai arcar com isso? Sou eu. A semana toda foi de negociação, coisas que as pessoas não sabem que rolam. Hoje, aqui, eu estou relaxando, estou tirando o luto que passei a semana toda e esse show aqui em Niterói foi significativo por isso. Voltei a sorrir e ver as pessoas felizes. Consegui tirar o peso que foi essa semana no Sul. 

CF: Percebeu alguma mudança no público? Esperava esse assédio todo?

Armandinho: Tive um momento muito bonito aqui no Rio, em 2006 e 2007. Mesmo estando fora da grande mídia, o público não esquece. Acho que houve uma renovação. Quando vim para cá em 2006, vim da internet e hoje eu estou de novo. Ter um público fiel que me acompanha na internet me faz sentir em casa. Tem muita gente ainda da turma de 2006 e 2007, mas houve essa renovação e o mais incrível que é com as mesmas musicas. 

CF: E falando nisso, apesar do tempo, suas músicas desse período são as mais cantadas...

Armandinho: Não tem como virar as costas para as musicas antigas. O cara vai no show do Lulu Santos, do Kid Abelha, quer ouvir as musicas do anos 80. Nosso trabalho passa a não nos pertencer mais. Tu não tens o direito de dizer ‘’Agora eu não vou mais tocar as músicas antigas e a galera vai ter que aceitar o meu trabalho novo.’’. Vou continuar tocando. Às vezes tiro Pela Cor do Teu Olho, por exemplo, e alguém diz ‘’Vim aqui só para ouvir essa.’’. Mesmo lançando um CD com 10 ou 12 músicas inéditas, eu só consigo colocar 3 ou 4 no show. O show hoje já está com duas horas, não tem mais espaço.

CF: Porque tem evitado tocar Folha de Bananeira?

Armandinho: Não tenho tocado mais justamente para dar um apoio simbólico, não estar sendo conivente com o uso de drogas. Eu tenho uma responsabilidade com os jovens. Quando é um show em casa noturna para maiores e a galera pede, eu toco. Mas quando tem molecada, não. Tem pessoas que enxergam a música numa boa e tem pessoas que não. Respeitando as pessoas que não enxergam, eu não toco. É uma musica divertida, que joga para cima, mas o meu trabalho não se resume a ela. 

Para o cantor, a música está acima da rivalidade entre Brasil
e Argentina/ Foto: João Victor Fiuza
CF: Como lida com o tempo para o trabalho e para a família?

Armandinho: Quando eu tinha um empresário, tinha mais tempo para a minha família. Às vezes não consigo ser pai integralmente. Estou viajando, chego durante a semana e fico envolvido com trabalho. Gostaria de ser um pai mais presente. Tenho que erguer milhões de homenagens a minha mulher, muito mais que Sol Loiro. Ela é uma guerreira. Estou aqui falando contigo e ela está lá sozinha. Eu sei que ela queria estar aqui comigo. Se ela pudesse faria isso em todos os shows.

CF: Nesse último DVD, gravado em Buenos Aires, percebe-se o carinho do público argentino com você. Como é a sua relação com a Argentina?

Armandinho: Criei uma relação muito forte com a Argentina e o Uruguai, principalmente a Argentina. A rivalidade no futebol tem que continuar, faz parte do jogo, valoriza. Mas nada melhor que a música para dizer ‘’Olha, não é só aquela guerra dentro do campo.’’. Quando a gente toca, a gente toca junto. 

CF: Teve um momento marcante no show, quando você toca Rosa Norte com a camisa da seleção argentina..

Armandinho: Para nós que somos brasileiros, é difícil vestir a camisa que no futebol é a seleção a ser batida. Não estava como torcedor ali, estava como ser humano. A música tem um elo emocional que faz as pessoas esquecerem de tudo. Quando vesti a camisa, mostrei que a música está acima. Continuamos rivais no futebol. A paz entre os povos é fundamental para que possamos viver melhor. 

CF: Porque voce acha que as pessoas gostam de você, curtem o teu som?

Armandinho: Sou uma pessoa normal. Tenho milhões de defeitos. Sou romântico para caramba. Acho que é isso, sou romântico. 

CF: Queria que você falasse do Armando Antônio Silveira, sobre a sua infância, criação...

Armandinho: Sou filho do Woodstock, fui gerado no meio do ano de 1969. Sou filho de pais separados, meu pai foi embora quando eu tinha dois anos, formou outra família e me via de vez em quando. Fui criado pela minha mãe e pela minha avó como filho único até os 15 anos. Minha mãe casou de novo e construiu uma nova família. A minha avó é uma pessoa que não teve muito estudo, veio de São Borja, interior do Rio Grande do Sul e criou a minha mãe no instinto. Mal sabia escrever e perdeu meu avô assassinado no exército quando a minha mãe tinha dois anos. Perdeu o pai com dois anos e o meu foi embora quando eu tinha dois também. Essa pessoa que não está mais aqui hoje, que é a minha avó, foi muito generosa, de uma humildade muito grande. Ela me ensinou a falar com os mendigos, cresci vendo ela fazer essas coisas. Tenho muito da personalidade dela. Ela era uma pessoa explosiva às vezes, falava muito, até o que não devia, por ser impulsiva. Às vezes eu faço isso, falo uma bobagem, chego em casa e penso porque falei aquilo.

CF: E o Armandinho?

Armandinho: Eu gosto do palco. Não me considero um grande cantor, eu desafino. Não me considero um grande guitarrista e não me considero um grande tocador de violão. Eu me respeito em cima do palco, nas quatro linhas com o microfone na mão. Ali eu fico cego. É o que eu mais gosto de fazer.

CF: Tem alguma música que te marcou mais, que você mais gosta de cantar ou que você poderia destacar?

Armandinho: É que nem filho, não posso dizer ‘’Eu gosto mais desse!’’. Tem especiais como Eu Juro, Outra Noite Que Se Vai...Não tem como escolher.

Agradecimentos: Claudio Diel
Entrevista realizada dia 03/02/2013 em Itacoatiara, Niterói.
Críticas, dúvidas e sugestões: fiusa.caio@gmail.com

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Entrevista: Gustavo Fagundes

Foto: globo.com
Embora o The Voice Brasil tenha acabado neste domingo, ainda é tempo de conferir o que os participantes acharam da experiência. O entrevistado da vez é Gustavo Fagundes. Estudante de medicina e cantor por hobby antes do programa, ele conta que daqui para frente a carreira artística será para valer. Abaixo, você acompanha a entrevista exclusiva que ele deu ao blog do Caio Fiusa. E você, o que achou da participação de Gustavo Fagundes?
  
Caio Fiusa: O que achou do seu desempenho?

Gustavo Fagundes: Fiquei muito satisfeito. A maioria da galera lá está na estrada há um tempão, então tem uma experiência muito grande. A música para mim antes do programa era hobby. Sempre cantei, toquei, compus, mas nunca levei isso a sério, nunca trabalhei, nem ganhei dinheiro com isso. Eu mandei o vídeo, fui passando nas seleções e daqui a pouco eu estava lá dentro, fui caminhando e cheguei longe, em um lugar aonde tinha profissionais de anos, como o Alma. Foi uma experiência que mudou minha vida para sempre.

CF: Qual a principal diferença antes e depois do programa?

GF: A maior diferença é que antes não tinha uma importância grande. Eu fazia algo mais relaxado. Eu não fazia show, não tinha nenhum compromisso com isso. A partir de agora, depois do programa, passou a ser profissional. Tenho uma carreira artística que estou construindo e vou mantê-la. Agora é sério, é trabalho, procurar estudar para melhorar como qualquer trabalho.

CF: Como está a relação com o público, número de shows, contratos?

GF: Antes meu público era meus amigos, minha família e de um dia para o outro meu Facebook explodiu com mais de mil solicitações de amizade. Hoje eu tenho mais de 15 mil assinantes. É uma coisa que eu não esperava. Foi muito rápido. Tenho seguidores, pessoas que gostam do som que faço, o que antes era bem pequeno. Tenho empresário agora, faço show, isso não existia. O máximo que eu fazia era me apresentar em aniversário de família ou de algum amigo.

CF: Você acha que houve injustiça na escolha dos jurados?

GF: Quando os técnicos estão de costas, ali realmente é o The Voice, julgam só ouvindo a voz. Mas depois que passa isso, vai influenciar todo o resto, figurino, presença de palco, carisma, é uma coisa natural por ser um programa de televisão. Não questiono isso. Foi a primeira experiência que a Globo passou, com certeza nem tudo foi perfeito, aconteceram algumas falhas como todo programa tem. É muito corrido, muita gente para cantar, os números são rápidos, as músicas são rápidas. Nós quase não temos contato com os técnicos para eles nos ouvirem melhor. Mas acho que eles tentaram fazer tudo da melhor maneira possível. Não creio em injustiça. A decisão é do público, não acho que é errado, acho que faz parte.

CF: Tem algum receio de acabar ficando rotulado com ex-participante do The Voice?

GF: O The Voice foi tudo para mim. Tocava violão no quarto e compunha músicas para mim mesmo e agora portas inimagináveis se abriram. Sempre sonhei em ter os contatos que eu tenho hoje em dia, conhecer as pessoas que eu conheci e ter a possibilidade de cantar na Globo para milhões de pessoas. Então, para mim foi um puta início de carreira que já me deu muita visibilidade.

CF: Você acha que pode enfrentar resistência de outras emissoras por ter saído de um programa da Globo?

GF: Eu sinceramente não entendo nada desse meio. Nunca tinha pensado nisso, pensei agora quando você falou. Acho que pode até rolar sim, mas não importa muito. O sucesso não depende da emissora, depende do que a pessoa vai fazer depois. Todos que estão ali têm um talento indiscutível e capacidade para isso.

CF: Acha que a preocupação do programa não é só com a voz, mas sim com um perfil já pré-estabelecido?

GF: Não sei qual a fórmula do sucesso. A Ellen, por exemplo, uma voz incrível, talvez a melhor voz, não canta músicas do povão. Ela canta Lenine, Paulinho Mosca e mesmo assim o público adora ela, é uma das favoritas. A Ju Moraes, que também canta muito, não sei se tem uma voz tão impactante quanto a da Ellen, mas tem um estilo, presença de palco, carisma, o que agrada muita gente. Eu gosto muito do estilo que ela canta, um axé misturado com samba.

CF: Você acha que algum participante escolhe uma música para impressionar um determinado técnico?

GF: Acho que não. Temos todo um suporte, não escolhemos a música sozinho. Eu nunca pensei em escolher para agradar a minha técnica (Cláudia Leitte). Sempre escolhi para ser verdadeiro e cantar seguro o que eu gosto. Pensava nas músicas que eram boas para mim e mandava para os produtores e para a Cláudia e eles me ajudava a escolher. Não sei se passa isso na cabeça dos outros, acho que não.

CF: Por que o The Voice Brasil fez tanto sucesso?

GF: Já suspeitava por programas musicais serem líderes de audiência em outras emissoras de outros países como Inglaterra e Estados Unidos. O Brasil tem um povo muito musical. A música é muito presente aqui. Era esperado isso acontecer, ainda mais na Globo e com a equipe que foi escolhida. Os técnicos são músicos fantásticos. Todos os candidatos, com seus jeitos peculiares, são muito bons, são os responsáveis por isso tudo.

CF: E para 2013, o que pretende fazer? Seguir a carreira de cantor ou se dedicar aos estudos?

GF: Estou no sexto período, conseguindo manter a faculdade e carreira artística. Minha profissão atualmente é artístico como cantor e compositor, estou trabalhando como isso. Além de estudar, pretendo continuar e me formar e manter as duas coisas por enquanto para ver o que vai ser. Não tenho a mente clara para definir qual eu prefiro ou qual eu quero. No momento eu sei que quero as duas coisas. Então, enquanto eu puder mantê-las vai ser melhor.

Entrevista realizada por telefone, sexta feira 14/12/2012
Contato: fiusa.caio@gmail.com

sábado, 15 de dezembro de 2012

Entrevista: Maldonado

Volante considera as lesões os momentos
mais difíceis da carreira./Foto: flamengo.com.br
Aos 32 anos, o volante chileno Claudio Maldonado é conhecido pelo seu estilo de jogo aguerrido, como todo bom marcador sulamericano. Revelado pelo Colo Colo, tradicional clube do Chile, ele acumula passagens por São Paulo, Cruzeiro, Santos, Fenerbahçe-TUR e seleções de base e principal. Atualmente no Flamengo, conquistou o Campeonato Brasileiro de 2009 e o Carioca de 2011. Abaixo, você confere na íntegra e com exclusividade a entrevista que o jogador deu ao blog do Caio Fiusa, onde lembra o período difícil que viveu com a camisa rubro negra e comenta a situação do futebol de sua terra natal.

Caio Fiusa: O Campeonato Brasileiro de 2012 foi o que mais teve jogadores estrangeiros na história. Por que você acha que isso está acontecendo?

Claudio Maldonado: O nível do torneio está crescendo a cada ano. Muitos jogadores que estavam lá fora, estão voltando porque eles sabem que o futebol brasileiro está qualificado como um dos melhores do mundo. E todo ano aparecem jogadores estrangeiros, todo ano os clubes abrem as portas para nós que somos de fora. Eu acho que por isso há tantos como argentinos, chilenos, peruanos agora, aqui. É um mercado muito forte, que a cada dia cresce muito.

CF: Você veio para o Brasil em 2000, muito novo ainda. Por que a opção de vir? Foi pela questão financeira, pelo futebol brasileiro ser uma vitrine?

CM: Na verdade, o Colo Colo tinha uma dívida com o São Paulo. Quando eles (São Paulo) foram ver um zagueiro, não quiseram por ser mais velho. O São Paulo queria um jogador mais jovem, que pudesse dar um retorno ao clube. Foi ali que eles me viram e quiseram me contratar. Cheguei com 20 anos e foi a melhor coisa que podia acontecer. Poder mostrar o meu futebol tão competitivo como o brasileiro e abrir portas para outros clubes, para mim foi o ideal.

CF: Como foram os primeiros meses de São Paulo? Você fala muito bem português, demorou muito para aprender?

CM: Não, porque no mês que cheguei, eu ficava muito tempo concentrado com meus companheiros. O São Paulo ainda estava na disputa do Paulista e da Copa do Brasil, então eu passava mais tempo no clube do que em casa. Foi naquele dia a dia que eu aprendi a falar, a me cuidar dentro e fora de campo, foi o momento ideal para eu poder aprender tudo o que eu sei hoje. O São Paulo me ofereceu toda a estrutura, além dos meus companheiros que foram fantásticos comigo. Todo o momento confinado foi de aprendizado.

CF: Teve muitas dificuldades na adaptação?

CM: Não tive muitas. Claro, você não consegue falar direito nos primeiros três, quatro meses. Às vezes é difícil você se expressar, mas não tive em momento algum aquela dificuldade de ficar abatido, triste. Foi muito fácil, tudo correu de um jeito que eu não esperava. Isso me ajudou para poder conhecer mais da cultura brasileira, falar bem, acho que tudo isso foi um muito bom. Eu cheguei muito novo, querendo aprender, querendo sempre o melhor também.

CF: Você começou no Colo Colo, clube de grande torcida no Chile e hoje está no Flamengo, que tem a maior do Brasil. Tem como comparar?

CM: A pressão é igual. São dois times do povo, pressão o tempo todo. As torcidas de Flamengo e Colo Colo não aceitam não serem campeões, não chegar entre os primeiros. Os dois são parecidos, por isso que eu já me sentia em casa quando cheguei. Já estava acostumado.

CF: Falando sobre o Flamengo. Você chegou ao clube em um bom momento, já sendo campeão no primeiro ano. Como foi a sua chegada?

CM: Cheguei com o Álvaro, porque o clube queria dois jogadores mais experientes para poder compôr a defesa. Foi aí que a gente deu uma força para o time e tivemos uma reta final muito boa. Foi um momento muito bom para o clube e para mim, que estava fora e pude voltar ao Brasil e mostrar o meu trabalho.

CF: Apesar da boa fase do clube, você teve uma lesão antes dos últimos jogos, inclusive não podendo jogar contra o Grêmio, o jogo do título. Na época, você já era experiente. Como foi esse momento?

CM: As últimas três partidas eu não pude jogar. Infelizmente me machuquei em um amistoso da seleção e fiquei quase quatro meses fora. Foi muito difíci porque eu tinha voltado bem, estava me sentindo bem desde que eu tinha chegado ao Flamengo e ficar os últimos três jogos de fora, foi muito triste. Não poder estar ali ajudando depois de tudo que tínhamos feito em onze, doze jogos. Não poder estar ali compartilhando aquela felicidade com os meus companheiros, brigando pelo título. Foi muito triste não poder estar em campo, mas por outro lado eu estava ali com eles no dia a dia, incentivando o tempo todo. Nós éramos um grupo e você tem que incentivar o cara que está ali e tentar dar força. Fiquei triste por ficar de fora mas feliz pelo Flamengo ter saído campeão.

CF: O Flamengo tem a maior torcida do Brasil, mas nesse ano teve a décima média de público. Por que uma posição tão abaixo do que é esperado do Flamengo?

CM: Acho que a gente perdeu muito depois que o Maracanã fechou. Nosso torcedor não estava mais com aquela vontade de ir ao jogo, até porque, para algumas pessoas ficava difícil o acesso ao Engenhão. Não é o nosso estádio, é tudo diferente e jogos à noite é mais perigoso. Então, acho que as pessoas ficam com um pouco de receio. A gente que depende muito do torcedor flamenguista, perdeu com isso e esses anos estão sendos difíceis. Não vai muita gente. Talvez o torcedor espera para ir só nos finais de semana, quando o jogo é mais cedo e dá para se programar melhor. O Flamengo perdeu muito com isso. O Maracanã era praticamente a nossa casa, o torcedor ia com felicidade, tinha gosto de ir.

CF: Já chegou a pensar em formar dupla com Cáceres? Acha que daria certo pelo estilo de jogo parecido?

CM: Acho que poderia ser, porque temos um estilo diferente de jogar, mais aguerrido. A gente tem um futebol mais de pegada, até pela posição em que jogamos. Ali no meio tem pegada o tempo todo, choque o tempo todo. Então, acho que estamos mais acostumados que os brasileiros.

CF: A crise interna, muito por causa do período eleitoral do clube, atrapalhou de alguma forma dentro de campo?

CM:  Acho que não. Nós estavámos sempre meio de fora de tudo o que estava acontecendo. Claro que a gente escutava e via o que acontecia no dia a dia, mas eu acho que isso não influenciou muito para nós estarmos mal ou jogarmos mal. Tem aquelas coisas de salário atrasado, o cara não está feliz porque o clube está devendo, tudo isso foi um problema muito grande ao longo desse ano. Mas eu acho que não tem relação com o nosso rendimento dentro de campo. Você tem que separar. Você se sente insatisfeito, não consegue se programar, mas quando veste a camisa esquece de tudo e tenta sempre fazer o melhor.

CF: Esse ano você quase não jogou. Como fica a cabeça de um jogador que convive com lesões, mesmo sendo experiente?

CM: Esse ano foi muito difícil desde o início. Eu nunca tava legal, o meu joelho sempre estava com algum problema. Foi o momento mais difícil. Fiquei quase o ano todo de fora, não conseguia acompanhar os meus companheiros, ficava tratando o tempo todo, duas vezes por dia, treinos aos sábados. Foi o pior momento que já vivi. Depois que passei por duas cirurgias, graças a deus melhorou. Depende muito de você, da sua cabeça, do que você quer. Mas eu sou tranquilo, sabia que ia me recuperar, ia ficar bem, voltar a jogar que era o principal. As pessoas às vezes sentem a sua falta. Elas te vêem sempre ali e é difícil para o torcedor entender porquê você não joga quinze, vinte jogos, fica o ano todo fora. Agora eu estou bem, quero começar 2013 do zero.

Maldonado acha que os jogadores chilenos
mudaram de mentalidade/Foto: Vipcomm
CF: A torcida do Flamengo cobra muito a raça dos jogadores em campo. Acha que foi por isso que eles sentiram a sua falta?

CM: Eles sentiram desde a saída do Williams. Sentiram que faltava alguém com as características parecidas com a dele. Ficamos sem jogador de pegada. Depois chegou o Amaral, que foi muito bem, o Cáceres, mas ele querem que o jogador jogue, que tenha uma qualidade diferente.

CF: A seleção chilena tem evoluído com o tempo. Hoje, já consegue jogar de igual para igual com alguns potências. Qual o motivo da evolução do futebol chileno?

CM: O grupo é muito jovem. Então, a maioria está jogando fora. As seleções passadas eram formadas quase todas por jogadores que estavam fora do país. E eu acho que com isso, a seleção aprendeu muito e fora o trabalho que o Bielsa fez. Ele fez os jogadores acreditarem que eles podiam fazer tudo o que as seleções faziam. Isso foi um aprendizado muito bom, trabalhar com um cara como o Bielsa, deixou um legado muito forte na seleção. Com trabalho e dedicação, os jogadores acreditam que podem fazer. Além disso, a experiência que cada um tinha fora. O (Arturo) Vidal da Juventus-ITA, o Alexis (Sanchéz, do Barcelona), jogadores que agora são de um nível altíssimo, que estão fazendo a diferença. Claro, que podem perder alguns jogos, mas deixaram uma base muito boa que pode se classificar para a segunda Copa consecutiva.

CF: Tem acompanhado os campeonatos chilenos? Como andam os clubes?

CM: Os clubes estão muito bem. O Universidad do Chile se manteve dois anos muito bem. O treinador do clube na época, o Sampaoli, que hoje está na seleção, fez um trabalho parecido com o do Bielsa. Foram campeõs da Sulamericana. O Colo Colo estava em altos e baixos, chegou um treinador argentino de novo e agora que começou a se recuperar, mas mesmo assim não se classificou para as finais do campeonato. O futebol do Chile está crescendo, aparecendo jogadores novos, com cabeça boa que antigamente era difícil. Os jogadores estão mais espertos.

CF: O seu contrato termina agora (dia 31/12/2012). Você vai continuar no Flamengo? Eu sei que o Luxemburgo é um admirador do seu futebol. Ele já chegou a conversar com você sobre a possibilidade de trabalharem juntos novamente?

CM: Não falei com o Vanderlei ainda. Eu queria me dar esse tempo agora porque eu acho que devo isso ao Flamengo por todo o tempo que fiquei machucado. Primeiro eu vou conversar com o Flamengo, o Dorival quer que eu fique para o ano que vem. Mas existe uma reunião ainda que vai acontecer...que deveria acontecer para ver a minha situação. Se não der certo aí eu vejo o que faço e para onde vou. Mas, primeiramente eu vou conversar com o Flamengo, devo isso a eles. Tenho um respeito muito grande pelo clube. Eles ficaram o tempo todo comigo, me incentivando mesmo sabendo que eu não ia jogar mais esse ano, que o meu contrato ia acabar. Se eles falarem que não me querem mais, tudo bem, eu vou estar sempre agradecido ao clube, não tenho o que falar do Flamengo.

Entrevista realizada por telefone quinta feira, dia 13/12/2012
Contato: fiusa.caio@gmail.com